autor(a): Frank Wedekind

Marquês de Keith


Escrita desde 1899 e encenada em 1901, a peça une criações anteriores do autor, refletindo sua experiência em circos e cabarés. Como é comum na literatura de Wedekind, este texto desafia convenções sociais, abordando a nobreza, as classes populares e as aspirações modernas em uma época de transição

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero teatro
Formato 14 x 19 cm
Peso 150 g
ISBN 9786587243276

Considerado por Frank Wedekind o seu melhor texto teatral, Marquês de Keith, peça escrita desde 1899 e montada no ano de 1901, foi concebida a partir da reelaboração de uma série de criações anteriores do autor, que chegou a participar de uma trupe circense, trabalhar como representante comercial de um marchand e a escrever poemas e canções para o cabaré alemão conhecido como Onze Carrascos.

Marquês de Keith, o protagonista oriundo das classes populares que dá nome à peça, almeja usufruir das vantagens de um título de nobreza autoatribuído. No entanto, sua obsessão calculista e seu pendor por uma “estética do brega” destoam de tal aspiração aristocrática. Não à toa, seu grande projeto é a construção do Palácio das Fadas, uma espécie de cabaré ou teatro de variedades que procura alcançar o espírito da nobreza e do moderno, e que, no entanto, mais se aproxima do kitsch.

Escrito em uma época já chacoalhada pelos levantes de 1848 e pela Comuna de Paris, mas visto pelas lentes de uma Alemanha ainda parcialmente feudal, este texto também traz, em contraste com seu protagonista, a figura de Ernst Scholz, personagem nobre que, mergulhado em uma profunda crise ética, e já desacreditado de qualquer virtude, se dirige ao Marquês em busca de uma formação epicurista.

Embora o texto de Wedekind tenha sido bem recebido, Marquês de Keith enfrentou resistência nos palcos, assim como aconteceu com sua outra peça, também publicada pela Temporal, O despertar da primavera. Mais uma vez, o autor desafia as convenções da sociedade e da arte através de seus escritos, explorando o clima cultural da passagem do século XIX ao XX e as técnicas do teatro popular ainda sobreviventes nos teatros de variedades e feiras sazonais daquele momento.

Por que ler a peça?

Marquês de Keith apresenta ressonâncias ao contexto político, cultural, sexual e étnico de Munique, por meio de personagens marginalizadas no espaço urbano em modernização, sejam eles boêmios, estrangeiros, montanheses ou interioranos. Sua obra reflete a tensão entre os valores coletivos emergentes, o capitalismo em consolidação e as estruturas sociais ainda ancoradas no feudalismo, trazendo à tona questionamentos sobre as possibilidades da vida pública e privada em um momento de transição.

A própria descrição do autor, que afirma ser esta a sua peça mais avançada espiritualmente, é uma motivação poderosa para se aventurar nesse enredo fascinante. Além disso, uma das características mais marcantes da obra é a sua dimensão autobiográfica: a censura da revista de sátira política Simplicissimus de que Wedekind era colaborador, figuras presentes em sua trajetória (Rudinoff, Willi Grétor e Oskar Panizza) e acontecimentos que marcaram sua vida.

Sobre a edição da Temporal

Segunda peça de Frank Wedekind publicada pela Temporal, a edição conta com tradução inédita, prefácio e notas de Vinicius Marques Pastorelli. Para aprofundar os conhecimentos na escrita de Wedekind, na seção “Anexos” o leitor encontra uma seleção de poemas e canções associados à gênese da peça, bem como fichas técnicas de algumas montagens a que tivemos acesso, além de sugestões de leitura. Por fim, o volume acompanha um escrito inédito em português de Thomas Mann, “Munique como centro cultural”, que discute a diferença entre o ambiente cultural da cidade durante a chamada Belle Époque e em 1926, no momento de ascensão do nazismo.

Sobre a coleção de teatro moderno

Fundada em 2018, a Temporal nasceu a partir do projeto de trazer ao público brasileiro obras da dramaturgia contemporânea, tanto nacional como estrangeira, entendidas como aquelas que se desenvolveram a partir do fim da década de 1960.  Diante da lacuna de publicações de textos teatrais modernos, que foram fundamentais para os desenvolvimentos posteriores do teatro e cujas primeiras expressões remontam ao fim do século XIX, surgiu a vertente de nosso catálogo dedicada a autores(as) modernos(as).

O despertar da primavera: uma tragédia infantil, de Frank Wedekind, inaugurou a coleção de teatro moderno da editora em 2022.

"A opacidade de suas peças [de Wedekind] tem a ver, desse ponto de vista, tanto com o que há de enigmático na vida popular e sua rápida mutabilidade quanto com as incompletudes da teoria, que, munida de visões totalizantes questionáveis, contenta-se com sua arcaica função de distinguir entre o justificadamente perecível e o que pertenceria a uma suposta marcha do espírito objetivo."

— o tradutor Vinicius Marques Pastorelli sobre a escrita de Frank Wedekind
O autor Frank Wedekind

Sobre o autor

Nascido em 24 de julho de 1864 na cidade alemã de Hannover, Frank Wedekind atuou em diversas frentes do campo cultural ao longo de sua vida: foi dramaturgo, encenador, ator, recitador, romancista, poeta, jornalista, produtor de uma companhia de circo e publicitário. Em toda sua obra, nota-se a presença de uma personalidade marcada pela inquietação. A irreverente participação de Wedekind no cenário político e cultural de seu tempo podia ser constatada em sua presença como, por exemplo, recitador de poesias e de peças nos cabarés alemães, o que acabou por lhe render forte perseguição, censura e até um mandado de prisão.

No campo da dramaturgia, a censura também acompanha alguns de seus mais de vinte textos teatrais, sobretudo porque o autor alvejava e contestava radicalmente a sociedade burguesa e os tabus sexuais daquele tempo. Pertencendo ao mesmo caldo cultural de onde surgiram o Simbolismo alemão e os trabalhos de Ibsen, Nietzsche, Strindberg e Hauptmann, Wedekind procurou responder, à sua maneira, às necessidades de renovação cultural e teatral da época.

Ao fazer uso de diversos procedimentos dramáticos – da farsa ao vaudeville, do drama ao circo –, foi capaz de exercer considerável influência sobre a geração seguinte de escritores, com destaque para os trabalhos de Bertolt Brecht, e até mesmo sobre a psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Frank Wedekind faleceu em 1918, aos 53 anos.