autor(a): Eugène Ionesco

A cantora careca


Peça de estreia de Eugène Ionesco, é um marco da crítica à linguagem como instrumento de esvaziamento do pensamento.

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Ensaio estrangeiro
Formato 14 x 19 cm
Peso 118 g
ISBN 9786587243443
Publicação 2025

O livro

Peça de estreia de Eugène Ionesco, A cantora careca foi escrita em 1948 e encenada pela primeira vez dois anos depois, no Théâtre des Noctambules, em Paris. O texto nasceu de um exercício pessoal: ao tentar aprender inglês com um manual para estrangeiros, o autor passou a copiar frases simples e truísmos banais — como “o teto está em cima”, “há sete dias na semana” ou “o Sr. Smith mora em Londres com sua esposa e seus filhos” — e se deu conta de que esses enunciados triviais, quando repetidos mecanicamente, tornavam-se absurdos, desprovidos de sentido.

Desse estranhamento surgiu A cantora careca, uma paródia da comunicação cotidiana e da fala social automatizada. Na peça, dois casais ingleses — os Smith e os Martin — trocam frases feitas em diálogos desconexos, pontuados por visitas inesperadas e digressões nonsense. O título, aliás, não faz referência a nenhum personagem da peça: nasceu por acaso, durante um ensaio, quando um ator errou a fala e disse “cantora careca” no lugar de “professora loira”. O equívoco agradou Ionesco, que decidiu adotá-lo de forma definitiva.

Desde sua estreia, a peça tornou-se um símbolo do chamado Teatro do Absurdo — termo cunhado por Martin Esslin — e um marco da crítica à linguagem como instrumento de esvaziamento do pensamento. Sua comicidade desconcertante esconde, sob a superfície banal das palavras, uma visão profundamente trágica da condição humana.

Por que ler a peça?

Mais de sete décadas separam a escrita de A cantora careca de nosso tempo, e ainda assim suas questões permanecem desconfortavelmente atuais. O esvaziamento da linguagem, a falência da comunicação, a repetição de clichês e a perda de sentido na vida cotidiana são temas que ressoam com força em um mundo saturado por discursos automáticos, burocráticos e algoritmizados.

Para Ionesco, o teatro era um lugar de desconstrução da linguagem e de exposição do ridículo — ou da tragédia — do mundo. Ao reduzir seus personagens a falas prontas e a gestos sem consequência, ele não apenas ironiza o conformismo da “pequena burguesia universal”, como também encena o colapso da identidade e da empatia em uma sociedade onde todos são intercambiáveis.
A cantora careca é uma “tragédia da língua", como definiu Ionesco. E também uma denúncia do vazio cotidiano que ameaça dissolver a subjetividade. Ler (ou assistir a) essa peça é entrar em contato com o lado mais inquietante do riso: aquele que se confunde com o silêncio, com a dúvida, com o absurdo.

Por dentro da edição da Temporal

- Tradução e prefácio de Dirce Waltrick do Amarante
- Texto baseado na edição da Gallimard de 1954 (em conjunto com A lição)
- Ficha técnica da estreia mundial no Théâtre des Noctambules (1950)
- Sugestões de leitura e cronologia da vida e obra de Eugène Ionesco
- Fotografias da montagem brasileira realizada pelo Grupo TAPA (2018)


Sobre o autor

Eugène Ionesco, nascido em 26 de novembro de 1909 em Slatina, Romênia, foi um notável dramaturgo com raízes culturais duplas, tendo passado grande parte de sua infância em Paris. Em 1929, ingressa na Universidade de Bucareste, onde estuda filologia moderna e inicia sua carreira como professor de língua francesa. Aos 27 anos, Ionesco se casa com Rodica Burileanu, com quem tem uma filha, Marie-France Ionesco, inspiração para muitas de suas histórias infantis não convencionais.

Em 1938, antes do início da Segunda Guerra Mundial, mudam-se para Paris, onde Ionesco obtém uma bolsa de estudos do governo francês para pesquisar a poesia de Baudelaire. No entanto, com a guerra iminente, o casal retorna a Bucareste, onde o autor passa a trabalhar como funcionário da administração romena durante o governo de Vichy. Após o término da guerra, a família retorna a Paris e Ionesco se torna revisor em uma casa editorial.

Somente aos 40 anos, em 1949, Ionesco escreveu sua primeira peça, A cantora careca, inaugurando uma série de textos que o associaram ao Teatro do Absurdo, juntamente com Samuel Beckett. Nas décadas de 1950 e 1960, o autor produz uma série de peças curtas e obras notáveis, como A lição (1950), As cadeiras (1951), Vítimas do dever (1952) e O rinoceronte (1959), que se tornou um clássico. Ao longo de sua carreira, Ionesco escreve 39 peças teatrais, tendo também se dedicado à escrita de diários íntimos, ensaios, literatura infantil, desenho e pintura. Ionesco foi eleito membro da Academia Francesa de Letras em 1970 e faleceu em 28 de março de 1994, deixando um grande legado à literatura e ao teatro.