O lírico, o épico e o drama constituem os três gêneros da literatura. O lírico é referido como memória; a epopeia, como imaginação; o drama, como tensão. O termo “drama” vem do grego e significa “ação”. No drama não há narrador. Apesar das rubricas, os(as) leitores(as) e o público aprendem tudo sobre o tempo, o lugar, os antecedentes e as personalidades da história a partir do diálogo direto entre as personagens. Eis a primeira tarefa do(a) tradutor(a): encontrar a voz de cada uma das personagens e a forma como se expressam. Descobrir se a pessoa é bondosa ou malvada, carinhosa ou agressiva, além de imaginar sua aparência, sua história, de onde veio, quem é, se tem algum sotaque ou regionalismo na fala, se é culto ou rústico, por exemplo. É preciso também imaginar um cenário para que se tenha ideia do espaço em que a ação se desenrola.
Traduzir textos dramáticos é um grande desafio. Além de se ter de ir, como diria Mefistófeles, “no encalço das palavras”, da melhor palavra “na língua de chegada”, a que melhor corresponda àquela empregada pelo autor na língua original, é também muito importante prestar atenção à fluência, ao ritmo e à cadência, para que não se crie nenhum ruído que possa interromper a fruição de quem está lendo e – principalmente – de quem está assistindo ao drama. Porque, numa encenação, o que passou, passou. No teatro, a palavra não volta atrás. (Essa é também uma das razões que tornam muito importante a impressão do drama em livro.)
Levando em conta o axioma de Flaubert, que diz: “o autor deve ser como deus no universo: presente em toda parte e visível em parte alguma”, penso que o tradutor deve se comportar como um semideus, já que está de certa forma limitado e não pode mudar a história original. Ainda assim, às vezes a tradução precisa adaptar o texto para que a palavra “caiba na boca” da atriz ou do ator que a esteja pronunciando.
Quando se trata da tradução de textos antigos, como o Fausto Zero, de Goethe, surge nova questão: que linguagem utilizar? Sempre há uma importante decisão a ser tomada pelo(a) tradutor(a): modernizar o vernáculo e os pronomes e os tempos verbais, ou manter o tratamento de época. Outra questão que sempre me ocorre é se devo aproximar o texto do público, ou o público do texto. Aqui lembro o que Walter Benjamin escreve a propósito da literatura: “aquelas traduções que escolhem para si o papel de intermediário, que em nome de outro transmite ou comunica, não conseguem transmitir senão a comunicação, ou seja, o ‘inessencial’. E esta é uma das características pelas quais se reconhece uma má tradução. A tradução só deve ir ao encontro do leitor no caso de também assim acontecer com o original”. Considero isso válido para os demais gêneros, mas será mesmo válido para o drama? Sim, o(a) tradutor(a) não é intermediário. À época em que foram escritas, tais falas eram compreendidas pelo público sem parecerem empoladas ou artificiais. Assim, tirar o pó dos textos clássicos, sem maquiá-los de contemporaneidade, parece ser o melhor caminho para a tradução. Isso não significa simplificar o original para aproximá-lo do público. O trabalho do tradutor envolve muita pesquisa e estudo, respeito pelo(a) autor(a), mas não deixa de ser também um processo de criação.
Apesar de o gênero dramático ser composto por textos escritos para serem encenados – tendo como seu primeiro destino “leitores originais”, o(a) diretor(a) e os(as) atores(as) –, por sorte, muitos deles acabam sendo impressos em livro, o que permite o acesso do público em geral a obras dramáticas. Qualquer leitor(a) pode se colocar no papel de diretor(a) ou cenógrafo(a), e criar mentalmente personagens, situações, sentimentos e intenções. Pode também escolher uma personagem e imaginar-se atuando, em cena. As possibilidades são inúmeras quando se tem em mãos um drama impresso. Como prova definitiva de sua importância, basta citar os clássicos textos dramáticos, aliás duas tragédias, a de Fausto, de Goethe (que materializa o mito do homem moderno), e a de Romeu e Julieta, de Shakespeare (a história de amor mais conhecida de todos os tempos), ambos escritos há centenas de anos. O que seria de nós, leitores(as), encenadores(as), atrizes, atores, se não tivéssemos acesso a esses textos? Ambos têm repercussão universal e ainda influenciam pensamentos e modelos de conduta até os dias de hoje.
Para Friederike Emmerling, editora de uma série alemã de obras dramáticas: “A leitura de textos teatrais também ajuda a compreender melhor o próprio teatro (...). O escopo e a forma realmente se encaixam perfeitamente em nossa sociedade de alta eficiência. As peças lembram os contos em sua unidade, os romances em sua complexidade, a poesia em sua linguagem e os ensaios em sua densidade política. O drama nada mais é do que uma síntese literária das artes”. Concordo com isso!
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Christine Röhrig foi editora nas casas Cosac Naify, Paz e Terra e Unesp. Traduziu inúmeras peças de autores contemporâneos alemães, entre eles Heiner Müller, Armin Petras, Bertolt Brecht e Thomas Bernhard. Para o público infantojuvenil, realizou as traduções de Contos maravilhosos dos Irmãos Grimm [1812–1815] (Coleção Fábula/Editora 34, 2018), dos textos Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht (Olho de vidro, 2018). É autora da peça Bertoldo, o tubarão que queria ser gente - uma experiência brechtiana e orienta o grupo de estudos da Companhia Paideia de Teatro. Em 2019, traduziu as legendas da peça Rosa, apesar de tudo, encenada na Galeria Olido, e da peça Compassion, de Milo Rao, para a MIT–SP. Em 2020, assinou a tradução de Praça dos Heróis, de Thomas Bernhard, peça publicada pela Temporal.
No banner: montagem de 1988 da peça "Praça do Heróis", de Thomas Bernhard, no Burgtheater, em Viena.