Valorização do teatro nacional: alguns apontamentos históricos
- história do teatro

Valorização do teatro nacional: alguns apontamentos históricos

artigo por JESSICA BANDEIRA: Dando sequência às discussões sobre a valorização da dramaturgia nacional, Jessica Bandeira, tradutora e pesquisadora de história do teatro brasileiro, lança luz sobre as políticas implementadas para fomentar o teatro nacional durante os anos 30, sob o governo de Getúlio Vargas. Em sua análise, Jessica destaca o papel crucial dessas iniciativas no fortalecimento da identidade cultural do país e no estímulo à produção da dramaturgia.

Para os amantes do teatro nacional, a pergunta mais difícil e complexa de se responder é: "Por que a dramaturgia brasileira não é valorizada?" É difícil ter uma resposta definitiva, mas o passado pode ser a chave para nos dar pistas de um futuro melhor. Se olharmos para trás, veremos que, em diversos momentos, o teatro nacional contou com políticas de valorização, como as políticas públicas criadas por Getúlio Vargas em prol da classe artística durante os anos 30, mas que são pouco lembradas nos dias de hoje.


Quando Millôr disse que o Brasil era um país com um imenso passado pela frente, é porque ele sabia que temos uma dívida histórica com nosso passado. Brasil, o país que negou a escravização e o genocídio dos povos indígenas. Brasil, o país que anistiou militares. E, no âmbito teatral, Brasil, o país que enterrou artistas, dramaturgos e toda uma história que mostra que o incentivo cultural sempre existiu —porém, a partir do momento em que essa memória coletiva nos é negada, não podemos valorizar o que é nosso.


As políticas públicas de Getúlio Vargas voltadas para o teatro nacional, no começo dos anos 30, foram uma revolução numa época em que o cenário teatral era muito diferente do de hoje. Naquele tempo, a bilheteria era a única fonte de renda dos artistas e dramaturgos, não havendo a subvenção nos moldes de companhias estrangeiras como a Comédie Française. Por conta disso, o trabalho do dramaturgo era moldado ao gosto do freguês, ou seja, do espectador. Não é à toa que Dias Gomes escreveu diversas peças questionáveis para o ator Procópio Ferreira. O gosto da plateia era soberano. 


Além disso, também tínhamos a figura do ator-empresário, que comandava as companhias teatrais, e os integrantes da companhia sempre estavam sujeitos a interpretar sempre os mesmos tipos, como o do galã e a ingênua. Em termos de estilo, o Brasil ainda copiava muito o que vinha de fora, com convenções herdadas do século anterior e que impediam a estruturação de um mercado teatral. No entanto, mesmo nesse cenário, vale lembrar que houve diversas tentativas de modernização do teatro brasileiro, como o teatro de brinquedo e o teatro da natureza, que pavimentaram o caminho para que, em 1953,  houvesse o marco do teatro moderno com Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.


Quando subiu ao poder, Getúlio Vargas colocou a cultura no lastro de suas políticas públicas. Suas políticas nacionalistas incluíam a valorização do nacional, mas dentro daquilo que Vargas considerava de bom-tom, ou seja, um teatro mais sério. Boa parte das políticas públicas para o teatro beneficiaram textos e grupos teatrais que se afastaram da chanchada (que era o que fazia sucesso nos anos 30 —  e que, naquela época, era considerada um problema pelos críticos teatrais) e que estavam mais alinhados ao nacionalismo de Vargas, digamos assim. Por isso, apesar de tantos ganhos para a classe artística nos anos de seu governo, não podemos nos esquecer de que havia um interesse muito maior por trás.


Uma das grandes criações de Vargas durante todo o período em que ficou no poder foi a Comissão Nacional de Teatro, em 1936, que acabaria se transformando no SNT, o Serviço Nacional de Teatro. Formada por membros da Casa dos Artistas, espécie de organização filantrópica e sindical de artistas do período, foi ela que ajudou a delinear as medidas necessárias para alavancar o teatro no Brasil. Uma curiosidade é que o pai de Vianinha, Oduvaldo Vianna, fez parte dessa Comissão, apesar de, mais tarde, ter se recusado a assumir a diretoria do SNT. Mas por que o órgão mudou de nome? Bem, porque logo se percebeu que a empreitada era muito mais complicada do que parecia, necessitando de um órgão mais atuante e permanente. O SNT passaria por reformulações, mudanças de nome (virou a INACEN e depois a FUNDACEN), até ser oficialmente extinto, em 1990, no governo Collor.


O decreto de criação do SNT, de 21 de dezembro de 1937, nos oferece todas as propostas do órgão. O artigo 3 delineia todas as funções do SNT:


Compete ao Serviço Nacional de Teatro:

1. promover ou estimular a construção de teatros em todo o país;

2. organizar ou amparar companhias de teatro declamatório, lírico, musicado e coreográfico;

3. orientar e auxiliar, nos estabelecimentos de ensino, nas fábricas, centros de trabalho, nos clubes ou outras associações, ou ainda isoladamente, a organização de grupos amadores de todos os gêneros;

4. incentivar o teatro para crianças e adolescentes, nas escolas e fora delas;

5. promover a seleção dos espíritos dotados de real vocação para o teatro, facilitando-lhes no país ou no estrangeiro;

6. estimular no país, por todos os meios, a produção de obras de teatro em todos os gêneros;

7. fazer o inventário da produção brasileira e portuguesa em matéria do teatro, publicando as melhores obras existentes;

8. providenciar a tradução e publicação das grandes obras de teatro escritas em idioma estrangeiro.


Assim, podemos ver que o SNT, em sua essência, tinha uma grande política de estímulo ao que era produzido nacionalmente. Quando Abadie Faria Rosa, dramaturgo, crítico e presidente da SBAT (Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais), assumiu o SNT, ele tinha a ideia fixa de estimular o teatro nacional por meio de um repertório mais "elevado", como dissemos anteriormente. Foi por isso que, algum tempo depois, o SNT começou com seus concursos de dramaturgia, ou seja, cada autor submetia sua peça e uma comissão avaliava se ela servia a esse ideal proposto pelo órgão e, consequentemente, pelo governo.


É a partir daí que também surgem as companhias teatrais subvencionadas, como a Companhia Dramática Nacional, cujo repertório contou com nada mais nada menos do que Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, um espetáculo que, ironicamente, de valorização não tinha nada. Muito pelo contrário, havia incestos mil, mas como Nelson, por ter trabalhado em jornal e seu pai ter sido dono de um, conhecia membros da classe teatral cooptados para o governo, como o ministro Gustavo Capanema e Henrique Pongetti, a produção de suas peças era estimulada, ainda que ele tivesse muitos problemas com a censura naquele período. Em linhas gerais, tudo isso acontecia porque a dramaturgia de Nelson era vista como "elevada" e "séria", mas sobretudo "moderna", o que o elevou a outro patamar. 


Apesar dos acertos e dos erros, essa iniciativa trouxe fôlego para fortalecer a organização artística. O SNT continuaria atuando, mesmo em tempos sombrios como a ditadura civil-militar. Diretores como Orlando Miranda, nomeado para o SNT em 1974, deram um gás dentro da organização, atuando junto com o ministro Ney Braga, que, ainda que fizesse parte de um governo militar, tinha uma forte ligação com a classe artística. Iniciativas como o SNT ajudaram o teatro a resistir ao sucateamento e à falta de valorização. Hoje o SNT não existe mais, mas com certeza suas ideias ajudaram na criação da Lei Rouanet, a Lei Federal de Incentivo à Cultura, achincalhada por desinformação.


A falta de valorização do teatro nacional reside em nossa própria falta de memória coletiva. Ainda que a Funarte (Fundação Nacional de Artes) faça um trabalho de resgate de fotografias e outros documentos históricos do teatro, disponibilizados em seu servidor, esse material ainda permanece desconhecido por muitas pessoas. Dessa forma, cria-se a ideia de que "o teatro nacional é desvalorizado, é assim mesmo, sempre foi", quando a História nos mostra em diversos momentos que a classe artística e governos estiveram empenhados em tornar o teatro menos elitizado. Por que conhecemos Shakespeare, mas não gostamos o suficiente de Martins Pena? E o que dizer de dramaturgos de resistência à ditadura civil-militar, como Vianinha, Leilah Assumpção e Dias Gomes? Qual é o lugar deles na História? Não conhecer nossa própria história nos condena ao lugar-comum.


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Jessica Bandeira é tradutora audiovisual e apaixonada por história do teatro brasileiro. Desde 2017, administra o perfil no Instagram da atriz Nathalia Timberg. Atualmente, pesquisa a vida da atriz com enfoque na sua contribuição no surgimento do teatro moderno brasileiro e na criação da televisão.


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Referências

RICCI CAMARGO, Angélica. A política dos palcos: teatro no primeiro governo Vargas. São Paulo: Editora FGV, 2013. 

MICHALSKI, Yan e TROTTA Rosyane. Teatro e Estado. São Paulo: Hucitec, 1992.

ADLER, Victor Hugo. A musa carrancuda: teatro e poder no Estado Novo. São Paulo: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

Decreto de criação do SNT: https://www.gov.br/funarte/pt-br/acesso-a-informacao-lai/institucional/representacoes-regionais/sao-paulo-1/vozes-da-funarte-sp/o-servico-nacional-de-teatro-2013-snt. Acesso em 17/01/2024