Talvez a Temporal seja a única editora brasileira que se dedique exclusivamente (ou quase exclusivamente) à publicação de peças teatrais, dando ênfase àquelas escritas em meados do século passado, sem excluir, porém, textos de outras épocas. Uma segunda característica do catálogo da editora é o de não ficar restrito apenas ao que se produz no eixo euro-americano. Desse modo, a perspectiva cênica se abre e faz a ponte necessária entre culturas. Esses textos dramatúrgicos, alguns ainda desconhecidos por aqui, outros esquecidos, trazem à luz aspectos políticos, históricos, feministas, os quais são destacados em paratextos assinados por estudiosos de diversas áreas e, muitas vezes, também pelo próprio tradutor.
Essa aposta em vozes ainda pouco conhecidas é ousada, principalmente quando vindas de países periféricos, os quais não são prioridade no Brasil, que esquece que ele é também periférico. O investimento da Temporal, felizmente, vai aos poucos interferindo, pelo menos essa é a minha impressão, na bibliografia dos currículos de cursos de pós-graduação e de graduação, e não só de teatro, justamente pela abrangência dos temas das peças e das diferentes perspectivas abordadas por seus autores.
No meu caso, tenho trabalhado com os livros da Temporal tanto no curso de graduação em Artes Cênicas quanto no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina, dos quais faço parte.
Recentemente, no Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução, discutimos alguns aspectos da história e da cultura da República Democrática do Congo, em razão da defesa de tese de Mwewa Lumbwe, agora doutora pelo programa e professora da Université de Kamina (República Democrática do Congo). Um livro que ajudou a criar esse diálogo com a história do país africano foi Uma temporada no Congo, do poeta, dramaturgo e ensaísta da Martinica Aimé Césaire. Além da peça propriamente dita, os paratextos do livro foram fundamentais para contextualizá-la. Os textos de apoio também discutem, o que é essencial, aspectos da tradução, assinada por João Vicente, Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani e Maria da Glória Magalhães dos Reis. O professor e estudioso da República Democrática do Congo Kabengele Munanga, que participou da banca de doutorado da professora Mwewa, assina o alentado posfácio.
Coube à mesma equipe que verteu Uma temporada no Congo traduzir a peça A encruzilhada, do dramaturgo, romancista e ensaísta do Togo Kossi Efoui. Os paratextos são, mais uma vez, valiosos, pois introduzem o leitor na obra e na vida do escritor, apresentam bibliografia sobre o tema e são, diria, um convite para quem quer iniciar uma pesquisa.
Outras peças do catálogo retomam temas de guerra, e uma delas em especial me chamou a atenção: Eu, Ota, rio de Hiroshima: o dia que virou noite, peça escrita em 2015. Trata-se do primeiro texto do dramaturgo e diretor francês Jean-Paul Alègre publicado no Brasil. Em tradução de Flavia Lago, o volume conta com posfácio da atriz Rita Carelli, ilustrações de André Stefanini e uma breve biografia do escritor.
Nessa peça, a tragédia de Hiroshima é narrada em parte por uma voz feminina, a voz do rio Ota que, com a explosão da bomba que devastou a cidade, entrou em ebulição. A peça trabalha com a ecoliteratura e com o conceito de Antropoceno. Nela, o rio resiste e conta a história de seus filhos desaparecidos: “Eu poderia falar, durante muito tempo, sobre o que aconteceu após minhas águas pesadas e frescas terem conhecido o fogo vindo do céu, naquela clara manhã de verão [...]. Eu poderia falar do câncer que corrói e que passa de geração em geração, do peixe radioativo que consumimos do outro lado do oceano e que transforma o sangue vivo e poderoso do jovem pescador, em sua embarcação, em líquido contaminado...”. Em tempos de Oppenheimer, fica o convite para conhecer um outro lado da história.
Dramaturgas mulheres também começam a ganhar destaque no catálogo da editora. Marguerite Duras, nascida no que conhecemos hoje como Vietnã e radicada na França, teve duas peças reunidas em um volume com prefácio da tradutora Angela Leite Lopes, apresentação da própria Marguerite Duras, entre outros textos de apoio. Outra dramaturga, presente na mesma coleção, é a austríaca Elfriede Jelinek, prêmio Nobel de 2004, autora de O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades, que retoma a obra do norueguês Henrik Ibsen. Se as peças de Duras falam da relação amorosa entre homens e mulheres, a de Jelinek discute o papel da mulher na sociedade e de sua luta para se inserir em um ambiente dominado por homens. Para os estudos feministas essas peças são, sem dúvida alguma, de grande interesse, entre outras razões porque ainda conhecemos poucas dramaturgas dentro e fora do Brasil. De modo que seria interessante, a meu ver, começar a dar voz a elas.
Há ainda um livro de ensaio no catálogo da Temporal, por enquanto apenas um, que merece um comentário: Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto, de Jean-Pierre Sarrazac. Embora o autor se debruce sobre o cenário teatral na França em um período de ebulição social, a questão levantada -- a dimensão política do teatro -- é sempre oportuna em qualquer local e época. Espero que em breve outros livros de ensaios sejam publicados.
O Brasil não fica de fora do catálogo da editora, que não é, enfatizo, nem um pouco colonizado. Ganham destaque as reedições das peças de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, como era conhecido o dramaturgo, cineasta, ator e ativista paulistano, que enfrentou com muita verve a ditadura militar. A editora publicou até agora algumas de suas peças escritas depois do Golpe de 1964, as quais, acompanhadas de estudos críticos relevantes, destacam a contemporaneidade de sua obra e a importância de mantê-la à disposição dos leitores, professores, pesquisadores de áreas diversas que abrangem artes cênicas, história, sociologia etc. Inicialmente, saíram Papa Highirte (1968) e A longa noite de Cristal (1969). Este ano, a editora reeditou mais duas dramaturgias de Vianinha, A mão na luva (1966) e Corpo a corpo (1971).
*
Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Artes Cênicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina. Autora, entre outros, do livro Cenas do teatro moderno e contemporâneo (Iluminuras). Traduziu “A cantora careca”, de Eugène Ionesco, em breve no cataloga da Temporal.