Nós, brasileiros e brasileiras, não percebemos a alternância das estações do ano de forma tão marcada como os habitantes de países mais distantes da linha do equador, como são quase todos os países do continente europeu, por exemplo. Em estados do norte e do nordeste do Brasil, o verão e o inverno costumam ser pouco diferenciáveis em termos de temperatura e paisagem, ainda que, como sabemos, a alternância entre períodos de seca e períodos mais úmidos também marca os ciclos anuais de maior e menor carência de recursos em alguns locais dessas regiões. A primavera, por sua vez, costuma ser vista mais ou menos como um meio termo entre o inverno e o verão, um “nem lá nem cá”. Em contrapartida, para aquelas pessoas que convivem com a neve cotidianamente, essa estação traz de volta as cores e os aromas, e dos galhos vazios e da paisagem acinzentada aflora uma nova vida policrômica. A paisagem muda e os sentidos se renovam. Não é sem razão, portanto, que a primavera tenha se tornado um importante símbolo de ressurgimento da vida em vários rituais míticos e religiosos. O ciclo de morte e ressureição, por exemplo, que representa o perecimento e, em seguida, o renascimento de uma entidade sagrada – seja ela um vegetal, um animal ou até mesmo uma representação humana, como a de Cristo – associa-se, direta ou indiretamente, ao ciclo das quatro estações que se repete a cada ano, trazendo períodos alternados de privação e outros de maior abundância. Assim, para além de toda a simbologia que esses ritos milenares carregam e para além de toda hermenêutica possível, é forçoso ver, em sua base, um dado intuitivo da experiência do mundo, seja no desafio de garantir os meios de subsistência para o ano inteiro, seja na força com que essa oscilação sensorial na percepção do mundo – isto é, nas cores, nos odores, nos sons etc. – condicionam também os sentimentos e a “alma” das pessoas.
Tudo isso está de algum modo presente na peça O despertar da primavera, escrita na virada do século 19 para o 20 pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind e lançada pela Temporal em março de 2022. Na trama, porém, esse aflorar da vida se associa à descoberta da sexualidade pelos seus personagens – jovens, de 13 ou 14 anos aproximadamente –, às curiosidades pelas novas sensações, pelos novos desejos, enfim, por tudo aquilo que representa o aflorar de uma nova sensibilidade. Em contraposição, a morte, a penumbra, a paisagem cinza e tudo aquilo que remete ao inverno se consubstancia nas velhas instituições do Antigo Regime: a escola, a família e a Igreja, com seus tabus sexuais e sua feição envelhecida e ossificada. Esse conflito entre o novo e o velho, a vida e a morte, o desejo e a lei – um conflito que se polariza ao longo das páginas do livro – constitui a tessitura dessa peça que, como era de se esperar, esteve, por quase um século, e em vários países, sob o olhar da censura.
Além de trazer ao público brasileiro o texto teatral de Wedekind, também promovemos dois debates em torno do livro, cada qual buscando desenvolver um dos temas centrais da peça pela perspectiva dos tempos atuais. Assim, no dia 11 de maio de 2022, ocorreu o debate De que forma O despertar da primavera nos ajuda a pensar a educação nas escolas?, com participação da crítica literária e professora da PUC-SP Diana Navas e da mediadora de leitura Patrícia Maria Osse; no dia 2 de junho foi a vez do debate Teatro e Psicanálise: diálogo a partir da peça O despertar da primavera, do qual participaram os psicanalistas Maria Letícia de Oliveira Reis e Paulo Sérgio de Souza Jr., com mediação de Heribaldo Maia. Ambos os eventos foram gravados e estão disponíveis no canal de Youtube da Temporal.
Em nosso Blog, O despertar da primavera também foi tema de análise. Em 31 de maio de 2022, o psicanalista e doutor em literatura Diego Cervelin mostrou a faceta pulsante, e atual, da obra de Wedekind, em texto sobre os motivos que levaram a peça a gerar interesse entre destacados nomes da psicanálise – Jacques Lacan chegou a escrever um prefácio à obra, afirmando que Wedekind antecipou Freud, “e muito”.

***
O amor possui muitas formas. Pelo menos tantas quantos são os amantes. Mas se por um lado as maneiras de viver o amor e de dar sentido às experiências amorosas são tão diversas, por outro, são poucas as palavras que usamos para nomeá-las. Nossa linguagem amorosa do dia a dia tende a ser bastante rudimentar e dificilmente exprime nuances ou nos possibilita, por exemplo, uma reflexão sobre os encontros e desencontros que surgem nos meandros da vida amorosa. Pode parecer que certas palavras associadas ao amor apresentam um significado compreensível de imediato. O casamento, por exemplo, que já não tem exatamente a ver com a união de terras e posses entre famílias, hoje consubstancia um desejo de união física e simbólica entre pessoas que se amam. Ele supõe uma forma de amor em princípio monogâmica (em princípio, pois sabemos que frequentemente o adultério entra pela porta dos fundos), ou pelo menos centrada predominante, ainda que não exclusivamente, em um único ser amado. Mas além de exprimir – mesmo que idealmente – uma forma amorosa, o casamento é também uma instituição, pois, independentemente de ser ou não reconhecido pelo Estado ou pela Igreja, ele pode definir compromissos, ainda que tácitos, mas, mais do que isso, ele marca a passagem para um novo tempo, passagem cuja natureza e sentido, em geral, os amantes só irão compreender depois. O casamento não (sempre) como realização de um sonho amoroso, mas como instituição às vezes capaz até mesmo de arruinar o amor: eis um dos temas centrais das peças La Musica e La Musica segunda, da escritora e dramaturga Marguerite Duras, lançadas pela Temporal em um único volume em agosto de 2022. No entanto, a escritora, naturalizada francesa, mas natural da Indochina (atual Vietnã), aborda esse tema pelo seu avesso: a separação. Assim, se o casamento, longe de realizar o sonho do amor, faz aflorar o seu lado obscuro, a separação, por sua vez, aparece aqui como o gatilho que faz reacender o amor. Eis o impasse que vivem seus personagens: o amor entre eles só pode existir deslocado de sua representação social correspondente. Mas, se é verdade que eles desejam intensamente viver esse amor emancipado dos códigos sociais, há nisso algo que os aterroriza sobremaneira; assim eles se tornam, ao seu modo, personagens trágicos.
O evento de lançamento do livro ocorreu no dia 18 de agosto, no galpão do Grupo TAPA, localizado na Barra Funda, em São Paulo. Com leitura dramática de trechos dirigida por Eduardo Tolentino e realizada pelos atores Bruno Barchesi e Camila Czerkes, a noite ainda contou com uma mesa de debate entre as professoras Laura Mascaro e Cristina Kuntz, com mediação da dramaturga Silvia Gomez.
No Blog, alguns convidados deram as suas impressões sobre as peças. Em outubro, foi a vez do pesquisador Maurício Ayer, que há vinte anos se dedica ao conjunto durassiano. Em um apanhado geral sobre a produção da autora, Ayer evoca a dramaturga, a cineasta e a romancista para lançar luz à forma pela qual Duras investiga a existência, os sujeitos e seu imaginário, no artigo intitulado “Uma dramaturgia para cruzar o limiar do desejo”. Em “A poeticidade da escrita de Marguerite Duras e suas personagens”, a professora e pesquisadora Maria Cristina Kuntz aborda alguns dos aspectos da obra de Duras que guiaram a sua fala na ocasião, como a relação entre a vida particular da autora, a construção de seus textos e os desdobramentos de suas personagens femininas ao longo de sua produção escrita.

***
Na semana de comemoração da independência do Brasil no ano de 1999 uma das edições da revista Bundas[i] trazia em sua capa uma bandeira dos Estados Unidos e, como manchete principal, o texto “Viva o 7 de Setembro!”. Em letras menores, ainda era possível ler: “Neste dia enrole-se nesta bandeira porque a nossa está proibida!”. Até onde nos é possível lembrar, o contexto era o seguinte: o uso da bandeira nacional estava sendo questionado no país em situações que não fossem consideradas dignas dela. A mensagem era evidente: a independência do Brasil não é digna de sua bandeira. Além disso, a bandeira dos Estados Unidos, é claro, também não estava lá por acaso, até porque seguia o tom crítico do periódico em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso (1994–2002) e suas conhecidas investidas neoliberais. Juntando essas duas ideias, é possível encontrar ali algo que pode ser estendido a quase a todos os países que passaram por um processo de independência: longe de concretizar a ideia de autodeterminação dos povos, esses processos não faziam muito mais do que reconfigurar as formas de dependência, inclusive liberando a ex-colônia para que outros países também pudessem participar da rapina. Se buscarmos outras camadas de sentido dessa chacota, ainda seria possível prosseguir: a alusão implícita ao então presidente da república nos lembra da participação de elites políticas – mas também econômicas – locais, engajadas na manutenção da dependência; e não é demais lembrar que esse mesmo presidente, que foi um dos formuladores da Teoria da Dependência em seus tempos de pesquisador acadêmico, havia apostado, não sem bons argumentos, na via do capitalismo dependente. Mas o que isso parece nos mostrar é que, muito mais do que a autonomia formal de um país frente à sua metrópole, o tema da independência nacional apresenta inúmeros entraves, desde a necessidade de importação de bens industrializados que hoje são praticamente indispensáveis a qualquer país – computador, celular etc. – até a produção e a reprodução de um conhecimento acadêmico interessado na manutenção da dependência, e desenvolvido, como não podia deixar de ser, por aqueles cuja dignidade humana não está posta em questão.
Uma crítica a tal superestima do papel da independência política formal para a verdadeira emancipação de uma população, que sabemos não enfrentar só inimigos externos, mas também internos, está presente no livro Uma temporada no Congo, do escritor, intelectual, político e um dos idealizadores do movimento da Negritude, Aimé Césaire. Tendo como tema a independência da atual República Democrática do Congo frente à Bélgica e o processo que vai desse episódio até o golpe de Estado perpetrado alguns meses mais tarde contra o primeiro governo independente do país, essa peça se constrói por uma oscilação entre os espaços do poder e espaços populares e evidencia, assim, os interesses econômicos que se ocultam por trás do discurso conciliatório que, se não justificou o golpe, pelo menos o amenizou. Ao mesmo tempo, o escritor martinicano coloca nos ombros de seu herói, Patrice Lumumba (1925–1961) – líder na luta pela independência do país –, o destino e a tragédia de toda a população, não somente a congolesa, mas também a dos demais países de África.
O livro foi lançado oficialmente pela Temporal no dia 3 de dezembro de 2022, na livraria Megafauna, em São Paulo. O evento, nosso primeiro encontro presencial após o decreto da pandemia, em março de 2020, contou com a presença dos três tradutores da obra, João Vicente, Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani e Maria da Glória Magalhães dos Reis, e da historiadora Mayana Nunes, e foi mediado por Camila Dias.
[i] Surgida como uma espécie de reedição do semanário O Pasquim e, ao mesmo tempo, como paródia da revista Caras, com sua patética ostentação dos famosos, Bundas foi uma revista de sátira política e de costumes que circulou no Brasil por um curto período, entre junho de 1999 e agosto de 2001.

***
Bom, essas foram algumas das nossas atividades ao longo do ano de 2022. Muitos desdobramentos dos lançamentos comentados aqui, bem como de outros títulos do catálogo da Temporal, continuam a acontecer. Não deixe de nos acompanhar por aqui e em nossas redes sociais. Vem muito mais por aí! ????
Equipe Temporal