“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”: Oduvaldo Vianna Filho se junta a Ferreira Gullar em história de resistência na forma de cordel
- crítica teatral

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”: Oduvaldo Vianna Filho se junta a Ferreira Gullar em história de resistência na forma de cordel

artigo por LUIZ ANTONIO RIBEIRO | Para começar agosto da melhor forma, Luiz Antonio Ribeiro escreve, para o Blog da Temporal, sobre a peça “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, texto teatral que chegou recentemente ao nosso catálogo. Em seu artigo, Luiz aborda o fato de que Vianinha, ao elaborar tal obra, utilizou da veia popular, unida à intelectualidade, para tratar dos conflitos no campo, entre trabalhadores, proprietários e políticos locais, que se intensificaram sob o regime vigente após o golpe civil-militar em 1964.

Vasculhar a obra de Oduvaldo Vianna Filho através das publicações da Temporal Editora tem sido umas das tarefas mais prazerosas e surpreendentes. Talvez por mera coincidência editorial, o fato delas estarem sendo publicadas aos poucos tem permitido a nós leitores que as obras sejam lidas, degustadas e maturadas antes que outras cheguem até nós. O resultado disso é a descoberta gradual de um insistente, dedicado e, talvez, o mais versátil dramaturgo do teatro brasileiro: Oduvaldo Vianna Filho


Neste breve texto, nosso objetivo vai ser mostrar o exercício constante de Vianinha em fazer do teatro um lugar possível para se falar do nosso país. Além disso, ressaltamos também no dramaturgo uma vinculação completa à experimentação das formas teatrais possíveis para o seu tempo e, principalmente, possíveis para comunicar e contrapor a ditadura. Quase sem vaidades e modismos, Vianinha foi um artista que prestou um serviço ao teatro, não fez uso dele para conquistas e realizações pessoais e isto no meio artístico não é pouco. E isto pode ter um prejuízo na sua leitura que queremos desfazer aqui. Em seu poema Manifesto 2, Paulo Leminski dizia que:


“Num país pobre,

movido a carro de boi,

é preciso por o carro na frente dos bois.”


Esta me parece ser a frase perfeita para circundarmos o procedimento artístico de Oduvaldo Vianna Filho. Através de suas peças, ele parece nos dizer que “se o teatro parece valer tão pouco para o mundo, é preciso tentar de tudo para que teatro diga algo”. É a partir disto que apontamos alguns dos diversos usos dos recursos teatrais e dramatúrgicos disponíveis que aparecem nos textos de Vianinha. Vejamos. 


Em Corpo a Corpo, temos a luta de um sujeito em um dia de fúria contra o sistema. Um indivíduo de dentro do seu apartamento entra em desespero. Bebe, cheira, liga e urra contra tudo e contra todos. Contra o fracasso de sua vida que, concomitantemente, é também o fracasso de todo o capitalismo. Através do indivíduo, Vianinha manifesta as fraquezas do intelectual diante do capital burguês até mesmo diante de suas aspirações de transformação social. 


Em Papa Highirte, por sua vez, Vianinha desenha uma fábula de um ex-presidente à lá “república das bananas”. Deposto e expulso de sua terra, esse homem frágil e fracassado tenta rearticular uma volta ao poder. Enquanto isso, um jovem idealista que havia sido torturado se finge de funcionário para vingar o assassinato de um amigo militante. Vianinha traça, aqui, as estupidezes do poder, os poucos recursos intelectuais de uma inteligência militar tradicional, a banalidade da vida dos poderosos. Em paralelo, relata a tentativa individual de um sujeito de redimir um passado perdido, traumático, doído, impossível. 


Já em Rasga Coração, última peça de Vianinha e exemplo que trazemos aqui, o autor faz de tudo um pouco. Ao retratar uma família atravessando o século XX, acompanhamos três gerações de brasileiros: um   avô de direita, intransigente integralista, um pai marxista tradicional e um filho que adentra os movimentos de contracultura do maio de 1968. Do retrato dessa família, vemos não apenas um recorte do mundo burguês e intelectual como também as diversas tentativas de resistência aos poderes instituídos. 


Veja que, em três espetáculos, temos três procedimentos estéticos, dramatúrgicos e narrativos completamente distintos. Isso não é uma escolha meramente estética, mas política. Como dissemos, em um mundo em que se ouve tão pouco teatro, o teatro precisa dizer tudo e de todas as formas. 


Em nosso texto de hoje, queremos trazer ainda um quarto exemplo: falaremos do espetáculo Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, encenado pela primeira vez em 1966. Se anteriormente, alguns indivíduos estavam no foco de suas narrativas, desta vez, Vianinha parece abandonar o retrato dos indivíduos burgueses e de classe média, para se voltar para as massas populares, uma massa feita de pessoas, sim, mas que estão na sociedade através de lugares específicos que lhe são atribuídos.


A história do espetáculo Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, nesse caso, é também, a história de sua escrita: se a narrativa é coletiva, a sua criação também. A premissa da peça foi criada coletivamente pelo Grupo Opinião e, posteriormente, transformada em narrativa por Vianinha que pediu a Ferreira Gullar para transpô-la para os versos, simulando uma estrutura rimada da literatura de cordel. 


Lembrando que o Grupo Opinião havia surgido logo após o golpe militar de 1964, e era formado por antigos membros do CPC. Sem estarem efetivamente “legalizados”, eles começam como parte integrante do grupo Arena de São Paul e somente no ano seguinte, em 1965, seriam formalizados. Na ocasião, apresentavam-se como sócios fundadores Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, Pichin Plá, João das Neves, Tereza Aragão e Armando Costa, justamente os que assinaram o roteiro do espetáculo.


Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come é uma típica comédia de costumes, dividida em três atos, recorrentes na tradição do teatro brasileiro, moldada à moda popular, através das rimas das redondilhas maior, ou seja, dos sete versos, também comuns na literatura de cordel. Além disso, a narrativa é entremeada por diversas vozes, cantos e danças. 


Na obra, temos um protagonista chamado Roque, uma espécie de herói popular pobre, que precisa recorrer à própria sagacidade – e adotar muitas vezes medidas ilícitas – para se safar das armadilhas que enfrenta. Com humor, a peça desconstrói normas de conduta, valores burgueses, regras sociais.


Basicamente, Roque é demitido e vai falar com outro funcionário, Brás das Flores sobre o caso. Em uma história que também vai mal para o amigo, Roque se envolve com Mocinha, filha do Coronel, que está prometida para um ricaço da cidade grande a quem o pai presta serviços para vencer as eleições. Diante de mercadorias, interesses políticos e opressões de todo tipo, a peça vai retratando a consciência gradual que Roque vai adquirindo da realidade que lhe cerca. 


Através dessa modulação do gênero popular para o teatro político, Vianinha e Gullar fazem um atravessamento do espetáculo com teorias políticas vigentes na época, como o teatro épico de Bertolt Brecht e o teatro do oprimido de Augusto Boal. Isso é importante de ser destacado, afinal, é na confluência destes gêneros que as personagens populares farão a passagem da massa à consciência. 


Alguns exemplos deste uso estão nos três finais propostos para a personagem de Roque ao fim do texto. No método de Boal, pede-se que se interrompa a narrativa para se propor outros finais para ela com o objetivo de mobilização de engajamento do povo na história encenada. No caso de Vianinha, a diferença está no fato de que nos três finais propostos, a vitória é de Roque: ele fica com os bens que deveriam ser do Coronel. O traçado é curioso: sair do teatro popular para entrar do teatro político de Boal, mas dar a ele, novamente, um desfecho popular que não tem qualquer compromisso com o verossímil ou com o real: o político aqui são jogos com o uso da forma, não a forma em si. 


No próprio prefácio de Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, Vianinha anota que o texto que leremos parte de três razões: “as razões políticas”, "as razões artísticas” e “as razões ideológicas.” Em um desses momentos, Vianinha diz: 


“A fonte é a literatura popular: a quantidade de acontecimentos sobrepujando a análise psicológica, a imaginação e a fantasia sobrepujando a verossimilhança. (...) O antiascetimos, a anti ironia, uma inevitável e sarcástica complacência, um fiel maduro amor à objetividade, a inexistência de contradição, sensualismo e virtude. (...)”


E o espetáculo vai nos oferecer uma gama imensa de personagens: os famintos, os expulsos de suas terras, os desempregados, os bêbados, os políticos, os poderosos, os latifundiários, os propagandistas, os aproveitadores, as jovens mocinhas herdeiras, as esposas espertas que traem. Enfim, figuras típicas de um teatro popular que se encaixam aqui nesta história. 


Se começamos o texto falando de um Vianinha insistente, dedicado ao teatro, sem vaidades e que buscou em todas as fórmulas as formas de contribuir com o quadro social brasileiro em meio à ditadura, queremos destacar aqui um lado de esperançoso. É na figura de Roque, esse faminto que descobre não só a sobrevivência, a alegria, o amor, mas também a consciência de classe e o sonho de desfazer esse sistema de opressão, que Vianinha vai lançar o sonho de um mundo mulher. Um sonho que, se parece menos épico e mais catártico, é que, de novo Leminski, é preciso sempre colocar carros na frente dos bois. 


Através de uma literatura popular, Vianinha vislumbra em Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come a possibilidade de deixar a intelectualidade não de lado, mas junto de sua veia popular, e engendrar através da musicalidade, dos corpos, da dança, das vozes e da alegria - ainda que em meio às piores opressões - como meio de transformação social. Para mudar o mundo, Vianinha nos ensina revolução, subversão, reflexão, mas também o encontro da arte com a diversão.



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Luiz Antonio Ribeiro é doutor e mestre em Memória Social nas áreas de poesia e literatura brasileira e bacharel em Teoria do Teatro pela Unirio - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Em geral, se arrepende do que escreve.