Retrospectiva Temporal 2023
- editorial

Retrospectiva Temporal 2023

No início de 2024, aproveitamos o momento inicial do ano para fazer uma breve retrospectiva das nossas publicações de 2023. Confira os comentários sobre as obras tecidos pelo Diretor Editorial da Temporal, Philippe Curimbaba Freitas!

A encruzilhada

Com a publicação de A encruzilhada, no início de 2023, o catálogo da Temporal ganhou o seu primeiro autor africano: o escritor, dramaturgo, ensaísta, cronista, ator e diretor teatral Kossi Efoui. Nascido no Togo, Efoui precisou exilar-se na França devido à perseguição que sofria em seu país natal por ter participado do movimento de oposição ao regime ditatorial de Gnassingbé Eyadéma.

De certa forma, a escrita dessa peça representou, para seu autor, a saída da “encruzilhada” na qual ele se encontrava, e isso não somente por ter sido sua primeira peça, mas também por duas outras razões maiores. Primeiro, por ter aberto o caminho para a sua inserção no circuito cultural francês, que hoje lhe garante o reconhecimento antes negado. Segundo, porque ela foi, nas suas próprias palavras, “um ato de exorcismo da violência que eu sofria enquanto crescia, entrava na adolescência”. A encruzilhada é um teatro-poesia sobre essa vida soterrada pelo autoritarismo e pela violência repressiva. E se ele é comovente, é porque o seu tema diz respeito não só à vida do autor, mas a muitas outras vidas que, de alguma forma, vivem, em diferentes países do mundo, uma sina semelhante. Nas palavras de Geni Nuñes, “um dos presentes mais lindos deste livro é o abraço, o acolhimento que ele nos dá em resposta às angústias impostas pela colonização”.

 

O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades

Em 1879, o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen escreveu a conhecida peça Uma casa de bonecas, que chocou o público de seu tempo por conferir o papel de protagonista a uma personagem que rompeu com os valores patriarcais vigentes e decidiu sair de sua “casa de bonecas” e abandonar sua família. Seu nome: Nora. Como a peça de Ibsen termina nesse ponto, com a fuga de Nora, muito se poderia especular – e de fato se especulou – sobre o que teria acontecido com essa personagem após tal divisor de águas em sua vida. Afinal, terá ela sido bem-sucedida na sua busca por emancipação, e na recusa do papel de submissão que era (e ainda é) esperado das mulheres? Será que, tendo abandonado o âmbito familiar, ela estaria livre da dominação patriarcal? Em suma: o que aconteceu após Nora deixar a casa de bonecas? Eis o título quase completo desta peça, escrita pela austríaca vencedora do Nobel de Literatura, Elfriede Jelinek, exatos cem anos após a peça de Ibsen.

A resposta de Jelinek não podia deixar de ser pessimista: construindo seu texto a partir da colagem de materiais diversos – citações de livros, canções, clichês, imagens e frases retiradas da cultura de massas, etc. –, a dramaturga nos apresenta um raio-x do funcionamento das relações sociais em sociedades caracterizadas pela dominação capitalista e patriarcal, seja as relações de trabalho, no espaço fabril, seja as relações de gênero, marcadas pela mercantilização da mulher. Mas isso é feito frequentemente em chave cômica, o que não apenas cativa o interesse do leitor/espectador, como também põe em evidência certas dinâmicas das relações sociais de que, outra forma, permaneceriam ocultas.

 

Marquês de Keith

Esta peça de Wedekind, considerada pelo autor como sua melhor peça, é uma testemunha de que há certas dinâmicas da vida cultural que só a arte da dramaturgia pode expressar com precisão. Ela foi escrita em meio um complexo processo histórico em que o velho e o novo se chocavam e, ao mesmo tempo, se imbricavam, e cuja direção ainda não era certa. Situado no final do século XIX, e sem o “privilégio” da visão retrospectiva, autor capta com precisão – e com discreto (às vezes nem tanto) pendor para o cômico –, o “espírito do tempo” nessa Alemanha não mais feudal, mas desalinhada em relação progresso técnico e social e às revoluções que tomam as ruas nos países vizinhos, sobretudo França. Assim, vemos uma espécie de dança dionisíaca dos valores morais e culturais, os quais se deslocam, se invertem, se desmentem, numa torre de babel que desorienta o leitor à busca de uma “moral da história”: uma burguesia que ascende forjando títulos de nobreza, uma nobreza que não quer mais ser nobre, um filho de magnata burguês de Monique que sonha se juntar à revoltas populares dos subsolos de Paris, pessoas do campo, com seus hábitos rústicos, algumas em processo de ascensão econômica, outras simplesmente como trabalhadores de baixo prestígio, que vez por outra fazem troça dos novos valores progressistas, e assim por diante. O fio condutor que articula essa profusão de personagens heterodoxos é o projeto do protagonista, que dá nome à peça, de construção do Palácio das Fadas, uma espécie de cabaré ou teatro de variedades. Para ele, homem do povo em busca de uma ascensão social por métodos não muito “nobres” – em que pese seu título de nobreza autoatribuído – essa é uma chance de enriquecer e ganhar prestígio, comprovando assim a viabilidade de uma “ética do oportunismo”; para aquele nobre descontente de sua nobreza, Scholz, trata-se de uma ocasião para praticar um paradoxal autossacrifício epicurista; no caso dos vários artistas, com ou sem pretensões estéticas, escalados para o evento de inauguração do Palácio de Fadas, vemos a trágica tentativa de deslanchar suas carreiras profissionais; para alguns homens do campo em busca da ascensão economica – um cervejeiro, um construtor e um restaurador –  aí está a chance de exercer seu “espírito empreendedor”. Escrita cerca de 10 anos depois de O despertar da primavera, Marquês de Keith é, por fim, uma peça inesgotável, já que cada leitura sua traz novas descobertas e inquietações!

 

Savannah Bay

O que significa contar uma história de amor? Ou outra história qualquer – mas, sobretudo, o que significa contarmos a nossa própria história? É possível mentir a respeito dela? É possível julgar a história que alguém nos conta como verdadeira ou falsa, tomando por referência a objetividade factual? Para Marguerite Duras, a resposta é: não. Contar a própria história não é uma atividade descritiva em busca da correspondência factual, mas sim um esforço continuo de constituição de si própria através da memória, da imaginação e, sobretudo, do afeto, ato este que abole qualquer diferença essencial entre o factual e o imaginado. Se a escritora indochinesa não chega a afirmar tal ideia dessa forma taxativa e abstrata, é inegável que, por meio de sua escrita, ela a realiza, tornando-a concreta e palpável. E entre suas obras, Savannah bay talvez seja aquela que a leva mais longe.

Em geral, nós costumamos percorrer as páginas de um livro de ficção cativados pela história, pelo enredo. Em Savannah bay, esse elemento estruturante que nos prende ao texto não é a história, mas um afeto que todos conhecemos: o amor. O ponto de partida é o amor entre uma jovem e Madalena, esse amor que instiga a jovem a buscar sua própria história nos relatos incertos da anciã que já padece de perda de memória, por conta da idade. Desse amor, se desdobram várias possíveis histórias – que se tecem, se espelham, por vezes se negam – a respeito do parentesco entre ambas, de uma terceira ausente que aparece como elo de ligação, de uma história de amor que estaria, talvez, associado à origem da jovem, das memórias (ou da imaginação) de Madalena como atriz de teatro, memória esta que atravessa as fronteiras entre a ficção e a realidade, e entre as histórias representadas no teatro e a sua própria história, representada – ou melhor, ensaiada – em Savannah bay. Nesse terreno narrativo em que tudo pode ser ou pode não ser, apenas o amor é certo. Mas o que é o amor, senão o desejo de constituir a si mesmo através do outro, de produzir a si mesmo ao produzir também esse outro? Em consonância com a ideia durassiana do amor, presente em várias de suas obras, o amor aqui tampouco é algo factual: é apenas uma busca, ou melhor, o afeto que alimenta o desejo dessa busca. Mas aquilo que se busca é sempre efêmero, fugidio, instável, ainda que intenso. Em Savannah bay, essa fragilidade do encontro amoroso transparece não só na perda da memória e na incerteza a respeito da narrativa que o enseja, como também na iminência de partida do amante, quando não na morte. Isso tudo ainda é reforçado pela canção Les mots d’amour, de Édit Piaf, cujos versos as personagens revisitam a todo momento, fazendo deles os fios da (re)construção de sua história.

 

Macbett

Essa releitura da quase homônima Macbeth, de William Shakespeare, narra, assim como esta, a história de um regicídio perpetrado por um valente general, após ter sido persuadido por feiticeiras de que seu destino seria tornar-se rei. Na versão de Shakespeare, a ambição desse personagem é uma desmedida: é aquilo que o leva a projetar-se individualmente para além do que a norma social seria capaz de tolerar. Seu fim trágico corresponde, por sua vez, à restituição da normalidade. Na versão de Ionesco, o regicídio não é apresentado como resultado de uma desmedida, ou da hybris de um personagem individual, mas de um mecanismo automático de perpetuação do poder e da violência. Macbett não é um herói trágico, mas uma peça a mais em um mecanismo que funciona, na leitura de Ionesco, a despeito da vontade humana. Cada personagem é uma peça. Eles frequentemente fazem e falam as mesmas coisas, repetem cenas idênticas apenas trocando de posição, como se todos – com exceção das feiticeiras – fossem robôs respondendo a estímulos mecânicos e completamente permutáveis entre si. O mundo “humano” desenhado por Ionesco é regido pelo mecanicismo. Nele, não existem indivíduos e nem caráter, mas apenas “bonecos” que respondem a estímulos, perpetuando a cadeia do poder e/ou da violência, frente à qual os personagens são essencialmente passivos e à qual, portanto, são incapazes até mesmo de conceber a possibilidade de reagir, ou de resistir.

A escrita de Ionesco é inseparável, por um lado, do terror vivido pela Europa nos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando uma máquina de homicídio em massa fora oficialmente instituída na Europa; e, por outro lado, de suas frequentes incursões pelo cômico e pelo grotesco, que o afastaram da linguagem realista, com a qual pretendia romper por vê-la como falsificação da realidade. Assim, se a compreensão que o dramaturgo romeno tem do mundo humano e social é profundamente pessimista, a possibilidade de uma escrita teatral imune às ilusões e à falsificação do teatro tradicional, e que expõe a irracionalidade de maneira nua e crua, parece ser exatamente a via por onde ele pretende salvar o teatro desse mesmo irracionalismo, frequentemente escamoteado pelo uso comum da linguagem e pelo teatro tradicional. Os personagens de Macbett não representam pessoas reais e nem verossímeis, mas tornam visível de modo cristalino uma faceta do humano do seu tempo – e, sem dúvida, também do nosso – que nos arrepia, mas que não podemos deixar de reconhecer também, em alguma medida, como nossa.