Quando o texto vira cena: o processo de traduzir a “Nora” de Jelinek para o palco
- depoimento

Quando o texto vira cena: o processo de traduzir a “Nora” de Jelinek para o palco

artigo por NORMA WUCHERPFENNIG | A intensa travessia de montar “O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades”, de Elfriede Jelinek, com o grupo Theatergruppe “Die Deutschspieler”, da Unicamp. Do primeiro contato com o texto ao palco, o relato da coordenadora do grupo revela os bastidores de uma criação que articula tradução, estudo rigoroso e experimentação cênica em versão bilíngue

Uma peça de teatro acontece ali – no palco, no jogo entre atores e atrizes na frente do público. Mas antes disso existe um outro encontro: o de um grupo com um texto. Antes disso, existe uma ideia.

    No nosso caso, essa ideia surge em 2022. Em busca de um novo texto, entro em contato com minha colega Ruth Bohunovsky, da UFPR, professora, tradutora e especialista em literatura austríaca. Será que ela não teria uma sugestão de uma peça austríaca? Tem. Lançam-se alguns nomes importantes, peças instigantes, mas nenhuma parece se encaixar com o perfil do grupo, já que apresentam poucos personagens, apenas protagonistas homens ou falas monológicas intermináveis... Mas eis que a Ruth se lembra do texto mais recente que havia traduzido coletivamente com um grupo de estudantes, composto por Angélica Neri, Gisele Eberspächer e Luiz Abdala Jr.: O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades, de Elfriede Jelinek. E é então que começa uma jornada nova para Theatergruppe “Die Deutschspieler”.

    O projeto nasceu em meados de 2015 no intuito de oferecer a estudantes no Centro de Ensino de Línguas (CEL) da Unicamp uma possibilidade de se aproximar da língua alemã por meio da arte. A ideia foi lançada em uma aula de alemão pela então aluna de pós-doc, Ana Cláudia Romano Ribeiro, hoje professora na Unifesp. Ela havia participado do grupo The Slayers, dirigido por Thiago Richter, cuja proposta era encenar peças em língua inglesa. Percebendo como a prática teatral a ajudava na aprendizagem da língua, Ana Cláudia, ativa no grupo até hoje, perguntou se não poderíamos iniciar um projeto similar para o alemão. No primeiro momento foi um susto para mim, pois, apesar de gostar muito de teatro, minha vivência se limitava, até então, à perspectiva do público; não saberia por onde começar um projeto próprio. Por sorte, eu já conhecia o professor Wanderley Martins, das Artes Cênicas, e sabia que ele trabalhava com dramaturgia alemã, além de se interessar pelo estudo da língua. Quando apresentei a ideia, ele de pronto topou, e continuamos nessa parceria até hoje.

    Na época, ninguém de nós imaginava que o grupo chegaria a completar uma década, tendo acolhido dezenas de pessoas, entre estudantes de graduação e pós-graduação dos mais diversos cursos, docentes de diferentes áreas, além de algumas pessoas externas. Batizado de Theatergruppe “Die Deutschspieler”, o nome faz referência aos múltiplos significados do verbo spielen: jogar, brincar, tocar, atuar, sintetizando as diferentes facetas do nosso trabalho. 

    Um importante diferencial do grupo é sua coordenação dupla: a parte cênica está sob responsabilidade do diretor, ator e professor Wanderley, enquanto eu como professora de alemão cuido da parte linguística. Mais do que um grupo amador, entendemos o projeto como grupo de estudos que se dedica, em ensaios semanais, à leitura, discussão e encenação de peças de autores e autoras de expressão alemã. Nosso repertório compreende autores bem conhecidos entre amantes do teatro no Brasil, como Bertolt Brecht e Friedrich Dürrenmatt, mas também nomes menos divulgados por aqui, como Elias Canetti, Dea Loher, além da já citada Elfriede Jelinek, por mais que fossem bastante conhecidos nos próprios países de língua alemã. Esse é justamente um dos nossos principais objetivos: divulgar textos que não chegariam tão facilmente ao nosso público e promover uma experiência que permita um diálogo com a realidade brasileira e com questões da vida humana em geral. Outro critério relevante é trazer certa variedade da dramaturgia em língua alemã, além de trabalhar com textos de homens e mulheres. Dessa forma, já trabalhamos com um autor e uma autora da Alemanha, um da Suíça, um autor búlgaro-britânico que escrevia em alemão, e, desta vez, com uma escritora da Áustria.

    Desde o início, uma das nossas preocupações foi possibilitar à plateia um contato com a língua alemã mesmo para quem (ainda) não tivesse conhecimentos do idioma. Assim, nossa marca são encenações bilíngues que se dirigem ao público geral interessado, independente de suas competências em línguas para além do português – bastam a curiosidade e a vontade de vivenciar uma experiência estético-linguística.

    A montagem bilíngue dos nossos roteiros é uma das fases-chave do nosso processo; trata-se de um trabalho manual e específico para cada novo texto. Para tal, através de muita experimentação, desenvolvemos técnicas próprias que foram consolidadas ao longo dos anos. O objetivo é que pessoas com poucos ou sem conhecimentos de alemão – que geralmente são maioria nas nossas plateias – consigam acompanhar a trama da peça mesmo que não entendam o texto todo. Isso significa que a maior parte do texto é apresentada em português, sendo que, normalmente, o percentual das falas em alemão varia entre um quarto e um terço. Para decidir o que será falado em alemão, é feita uma análise detalhada do texto. Por um lado, aproveitamos repetições e retomadas presentes no próprio texto para manter o fluxo do discurso. Em algumas cenas um personagem pode falar alemão enquanto outro fala português; em outras, a mescla é mais livre. Por outro lado, recorremos a recursos teatrais, tais como cenário, atuação e intenções nas falas para assegurar a compreensibilidade de determinada cena. Além disso, pode haver materiais (áudio-)visuais e/ou impressos dando apoio à compreensão. Dessa forma, o público pode saborear o alemão, se surpreender com sua sonoridade, quem sabe reconhecer algumas palavras ou expressões e perceber como não é necessário entender tudo para construir sentidos.

    Para além da experiência positiva com o alemão – geralmente tido como duro, difícil e inacessível – não raro a qualidade artística das apresentações supera as expectativas do público: um resultado do amadurecimento do grupo ao longo do tempo e do compromisso, engajamento e prazer de seus membros.

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Em novembro de 2024, chegamos ao final da temporada do nosso trabalho com a Nora de Jelinek, tendo o percurso de montagem sido um dos mais ricos e complexos. Nosso primeiro contato com o texto havia sido em maio de 2022. Pela primeira vez trabalhamos com um texto ainda inédito no Brasil e, até onde sabemos, a nossa foi a primeira encenação nacional. Por mais que a equipe tradutora já houvesse fechado o contrato de edição com a Temporal, o lançamento do livro estava previsto apenas para março de 2023. Assim, consultamos a editora sobre a possibilidade de uso do texto e logo recebemos a autorização. Em agosto de 2022, iniciamos o trabalho propriamente dito. Como se trata de uma peça secundária, começamos pelo texto primário, Casa de Bonecas, convidando dois especialistas em Ibsen: René Piazentin e Zédú Neves. Depois conversamos com Artur Kon, autor de uma tese sobre Jelinek, e Maria Tendlau, que tinham acabado de encenar outra peça da autora. Por fim, tivemos a oportunidade de dialogar com a equipe de tradução. Todos esses encontros nos proporcionaram uma visão ampla sobre as obras e as referências envolvidas em termos sócio-históricos, culturais e linguísticos. Apesar da complexidade do texto, publicado originalmente em 1979, foi fácil estabelecer conexões com diversas questões contemporâneas, como a posição da mulher na sociedade, a luta por condições dignas de trabalho, o enfrentamento à especulação imobiliária e a ascensão de políticas extremistas, entre outras.

    Após muitas leituras, do texto em português e do original em alemão, e discussões aprofundadas através das quais consolidamos nossa compreensão da peça, seguimos para o trabalho de cortes – sempre necessário – e para a montagem bilíngue. Finalmente, em agosto de 2023 iniciamos, de fato, a encenação. Estreando a peça em dezembro de 2023, chegamos a cinco apresentações no total. Além de três apresentações com plateia lotada na Unicamp, conseguimos levar a peça para São Paulo e Belo Horizonte – experiências memoráveis e gratificantes para todo o grupo. Paralelamente, também apresentamos pequenas amostras com algumas cenas selecionadas em um evento virtual promovido pelo Centro Austríaco em Curitiba, em maio de 2024, e, mais recentemente, durante a retrospectiva dos 10 anos do grupo, em junho de 2025.

    Encerrando essa longa jornada com as palavras de Nora que, após sua catártica tarantela na cena 6, conclui: Levanto gemendo, cansada, mas feliz.


Norma Wucherpfennig é professora de alemão no Centro de Ensino de Línguas da Universidade Estadual de Campinas (CEL/Unicamp) desde 2007, onde coordena o projeto interdisciplinar Theatergruppe “Die Deutschspieler” junto com Wanderley Martins. Além disso, é membro do grupo de pesquisa “Zeitgeist: Língua Alemã em Contextos Universitários” que se dedica à produção de material didático para o público acadêmico no Brasil.




Referências:

Jelinek, Elfriede. Was geschah, nachdem Nora ihren Mann verlassen hatte oder Stützen der Gesellschaften. In: Jelinek, E. Theaterstücke. Hamburg: Rowohlt, 2021, 7-78.

Jelinek, Elfriede. O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades. São Paulo: temporal, 2023. Tradução: Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr., Ruth Bohunovsky.

Kon, Artur S. Elfriede Jelinek. Do texto impotente ao teatro impossível. Tese de doutorado. São Paulo: FFLCH, USP, 2021. Disponível em: https://filosofia.fflch.usp.br/sites/filosofia.fflch.usp.br/files/posgraduacao/defesas/2021/2021_tese_artur_sartori_kon_vol._1.pdf

Wucherpfennig, Norma. Arte e aprendizagem – uma via de mão dupla. O projeto Theatergruppe ‘Die Deutschspieler’ e seu potencial. In: Uphoff, D.; Leipnitz, L.; Arantes, P.; Pereira, R. (Org.). Alemão em contexto universitário: ensino, pesquisa e extensão. São Paulo: Humanitas, 2019, 151-167.

Wucherpfennig, Norma. Was soll das Theater?! - VIEL-seitiges Lernen mit zweisprachigen Theaterstücken. In: XVI. Internationale Tagung der Deutschlehrerinnen und Deutschlehrer, 2018, Fribourg. IDT 2017, Band 2. Sektionen. Berlin: Erich Schmidt, 2018. v. 2., 369-374.

Theatergruppe “Die Deutschspieler”: https://www.instagram.com/theater.deutschspieler/