Assista ao vídeo aqui. Confira a transcrição completa da entrevista abaixo.
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tradução Gisele Eberspächer
revisão da tradução Ruth Bohunovsky
Ruth Bohunovsky: Minha primeira pergunta é sobre o livro O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades. Talvez você possa contar um pouco sobre quais são os temas da peça e se ela, que foi publicada pela primeira vez em 1979; ainda tem alguma relevância hoje?
Andrea Heinz: Essa peça foi escrita basicamente para fazer um novo questionamento da temática de Ibsen, ou seja, será que uma emancipação da mulher é possível nos moldes traçados por Ibsen, isto é, uma mulher se liberta deixando a casa onde mora? E Jelinek escreve a peça nos anos 1970, uma época com um movimento feminista forte. E ela questiona muito se isso é realmente possível. Como Jelinek é marxista, e se enraíza fortemente nesse pensamento, ela pensa que são as condições econômicas que impedem a libertação das mulheres.
R. B: Então é possível dizer que esta é uma peça feminista e ao mesmo tempo uma crítica ao feminismo?
A. H: É possível dizer que sim. [A peça] certamente diferencia esta abordagem feminista e mostra que as condições não são tão simples assim, mas, sim, moldadas por muitos aspectos. E que o aspecto econômico, ou simplesmente a questão do sistema econômico em que nos encontramos, é fundamental. Isso significa que não é possível simplesmente ver as relações de gênero sem pensar em aspectos…
R. B: …econômicos…
A. H: É, sobre o que está no entorno dessas relações.
R. B: Eu não quero dar nenhum spoiler, então talvez uma pergunta mais geral… A peça, uma das primeiras da autora, que continua escrevendo até hoje, apresenta quais características ou temas que continuam sendo relevantes para a obra de Jelinek?
A. H: Existem duas questões muito importantes. Uma é o sistema econômico em que vivemos, o capitalismo – agora até o capitalismo globalizado. A outra é a questão de gênero, que é naturalmente uma relação marcada pelo patriarcado. Estes são temas muito centrais que sempre aparecem de uma forma ou de outra. Depois, outro tema principal da autora é a própria linguagem. Na forma como tudo é transmitido. Como você mesma disse, Nora foi a primeira peça de Jelinek, e mesmo assim é possível perceber que, embora no início ainda existam papéis atribuídos, coisa que ela para de fazer ao longo dos anos, não são papéis concebidos psicologicamente. As personagens falam em frases prontas, não em sua própria língua, essas frases não vêm de seu ser mais íntimo. Elas adotam esses moldes prontos que vêm de fora.
R. B: Eu acho que ela disse que ela não leva personagens para o palco, mas sim a própria língua.
A. H: Exato. É possível dizer que no palco é a linguagem que fala essas personagens e que temos aí diversos discursos: O discurso publicitário, de mercado e, claro, esse discurso muito estereotipado de gênero, de que a mulher é feminina, bonequinha.
R. B: Vocês também têm um projeto de pesquisa que se chama "Gênero e violência", e essa combinação também é algo que aparece nessa peça e na obra da autora como um todo.
A. H: Exatamente. Certamente é possível afirmar que sim. E isso vem da linguagem, porque, é claro, a violência está na linguagem. Também se percebe muito evidentemente na sua obra a violência que a própria linguagem exerce sobre as personagens e, claro, também que as personagens exercem violência pela linguagem, e são sobretudo as personagens femininas contra si mesmas; mas, sem dúvida, também uns contra os outros. Essa violência dentro das relações das mulheres é uma grande questão. Além, é claro, da violência entre gêneros.
R. B: E uma pergunta para terminar. Jelinek hoje escreve peças de teatro muito diferentes do que vemos em Nora, mas ela continua escrevendo sobretudo peças de teatro. Você teria uma explicação para isso? Ela já escreveu romances, mas por que ela escreve principalmente textos teatrais nos últimos anos?
A. H: Eu suspeitaria que tem muito a ver com a maneira, pela qual ela é conhecida agora, de reagir com extrema rapidez às questões políticas atuais do dia. Então acho que isso tem mais a ver com a rapidez. [Esse tipo de texto] pode ser produzido e publicado de modo mais rápido do que um romance.
R. B: E as peças montadas chegam mais rápido até o público…
A. H: Exato. Há também um grande imediatismo, sem dúvida, e acho que corresponde mais à sua compreensão de que esses textos – muitas vezes escritos em forma de superfícies textuais – mostram melhor, ou mostram melhor numa montagem cênica, como a linguagem atravessa os corpos.
R. B: Muito obrigada!
A. H: De nada!
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Andrea Heinz é colaboradora acadêmico-científica do Centro de Pesquisa Elfriede Jelinek em Viena.
Ruth Bohunovsky é professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desde 2008 e atua nas áreas de língua, literatura e tradução. Também é coordenadora do Centro Austríaco da mesma universidade. Escreve sobre tradução, literatura austríaca e sobre as obras de Thomas Bernhard, Elfriede Jelinek e Wolfgang Bauer. Em 2019 publicou pela Editora UFPR a tradução Áustria: uma história literária – Literatura, cultura e sociedade.