Macbett, ou a farsa da ambição
- crítica teatral

Macbett, ou a farsa da ambição

artigo por MÁRIO COUTINHO | Para finalizar março, Mário Coutinho discorre sobre um importante contraponto entre Macbett, de Eugène Ionesco, e Macbeth, de William Shakespeare: enquanto o texto original pode ser descrito como a tragédia da ambição desenfreada e suas consequências, Macbett, uma releitura, é a farsa do poder no teatro do absurdo. Se Macbeth vacila entre honra e desejo, Macbett revela a ambição como um espetáculo grotesco. No fim, resta apenas o vazio.

Macbeth é um profundo retrato da ambição e de suas consequências. Esse retrato, naturalmente, mostra a ambição num mundo completamente diferente do nosso. Inspirado pela Historie of Scotland de Holinshed, William Shakespeare une os acontecimentos de dois reinados, de Dubh (Duff) e Duncan, separados por mais de sessenta anos, e, acredito, incorpora algo do ethos, dos valores, de Eclesiastes IV na narrativa. Então, a ambição na tragédia já não é mais aquela de uma sociedade estamental marcada pela moral cristã medieval, nem mesmo fruto de uma poética que reflete essa sociedade. Shakespeare não tem o mínimo intuito de moralizar sua audiência, pelo contrário, como quer Harold Bloom, nos faz cúmplices de Macbeth. Nós somos os modernos que ambicionam grandeza.

Sua ambição não é bem definida, não sabemos por quê Macbeth deseja o trono. Talvez seja possível dizer que ele não o almeja, ao menos até ser tentado pelas três bruxas que profetizam seu futuro reinado na charneca, oferecendo a Banquo uma profecia ainda mais truncada “lesser than Macbeth, and greater/not so happy, yet much happier./Thou shall get kings, though thou be none.” [I] 

O solilóquio na cena VII do primeiro ato revela o verdadeiro caráter da personagem. Macbeth pondera o assassinato de Duncan “se fosse feito – quando for feito — e bem feito com rapidez”. Se tudo corresse bem, sucesso, e tudo estaria resolvido. No entanto, também há riscos: os perigos da justiça humana e divina. Além disso, Duncan é seu primo, convidado e soberano. Por fim, Macbeth decide contar a sua esposa que devem desistir do assassinato. Lady Macbeth consegue persuadi-lo e desfaz toda a reflexão do solilóquio atacando a masculinidade de Macbeth, que parece admitir sua própria enfermidade de propósito quando acrescenta “bring forth men-children only,/For thy undaunted mettle should compose/nothing but males" [II] a sua anuência. Lady Macbeth é forte, ambiciosa e implacável, características que seu marido admira e quer em seus filhos; por um instante Macbeth e Lady Macbeth parecem, de fato, um casal moderno, daquele amor entre semelhantes tão caro ao romantismo. Podemos dizer, como já foi dito em outro lugar, que se Hamlet, o pai, é um homem medieval e Hamlet, o filho, já é um homem moderno, Macbeth é o indivíduo na cúspide do tempo, justamente no ponto de inflexão em que a ambição triunfa sobre os valores de honra. Macbeth ambiciona e teme aquilo que vê, mas falta-lhe coragem para agir até que sua esposa o empurre, e é aqui que ele vacila.

Banquo também é vítima da profecia e, apesar de não ser o homem sanguinário dos salmos (S. 5:7) que Macbeth se torna, acaba incorrendo no pecado da omissão. Os dois são afetados pela ambição que corrompe, ambição banal que é fruto da inveja, correm atrás do vento simplesmente porque lhes foi anunciado.

E a própria terra sofre as consequências dessa inversão da ordem natural, como na narrativa do roi pêcheur, o país é desolado, o que insta Malcolm e Macduff a exercerem justiça e restabelecerem a disposição mundana rompida pelo assassinato de Duncan. Com Lady Macbeth morta, o tirano se apoia completamente na profecia, revelando que Macbeth via, mas não enxergava.

Eugène Ionesco constrói sua peça em uma realidade onde a ambição desmedida que leva a morte em escala industrial foi assimilada pela cultura, no plano do teatro do absurdo, em que o mais cômico é justamente o trágico. E existe algo mais trágico que o vórtex da vida contemporânea, onde as camadas históricas de sobrepõem? Aqui todos são homens vazios movidos pela publicidade, essa força imperial que conduz o mundo. 

A cena do limonadeiro sintetiza o caráter da peça quando esse anuncia “limonada para curar as feridas, medo, esfoladelas, arranhaduras, para o coração, medo, torcicolos, resfriado, rubéola e varíola – a quatro garrafas por três francos.” Para cada problema existe um produto. Todas as relações em Macbett são de interesse e ambição, nada existe senão em função da acumulação de poder.

Se em Shakespeare Duncan escapa do antigo Cawdor para cair nas mãos do novo, na versão de Ionesco o discurso de Glamiss e Candor é repetido verbatim por Macbett e Banco. Os nomes podem até mudar, mas os interesses são sempre os mesmos.

E o interesse do protagonista pelo trono, que em Shakespeare tem contornos sem uma forma definida, se torna uma cena típica de sedução do cinema noir, onde Lady Duncan aparece de bikini e insta Macbett, dizendo aos seus pés que “gostaria de ser seu escravo”, a matar Duncan. A verdadeira Lady Duncan está presa, Macbett e Banco organizam o complô com uma das feiticeiras disfarçada, nenhum dos dois consegue ver além do fino véu dos interesses e não resistem aos seus impulsos mais baixos. Tudo isso para provar que são homens.

Lady Macbeth é atormentada pela visão de uma mácula indelével em suas mãos e comete suicídio, Macbeth então diz “a vida é como um mal ator, que gagueja e tropeça no palco”, e se corrige “é a história de um idiota, cheia de som e fúria, e não significa nada”; vanitas vanitatum et omnia vanitas. A morte de sua companheira revela quem ele é e tudo aquilo que pode extrair da realidade, um vazio. Ionesco faz seu Macbett se tornar o próprio tolo quando descobre que, na verdade, se casou com uma feiticeira horrorosa que lhe pregava uma peça, e não com a linda Lady Duncan, Macbett é o idiota que precisa da propaganda e das imagens para se definir, que acreditou que omnia vincit amor.

Macbett morre pela espada de Macol, que revela uma inversão cômica da profecia e promete ao seu povo a restauração da ordem depois de pôr a cabeça do tirano na ponta de sua espada. Acontece que a ordem é a da injustiça, do estupro, da avareza, do vício, da destruição do outro, da guerra, do genocídio e se desmancha no ar. Ionesco parece ver um mundo corrompido, um mundo em que ideologia é apenas uma máscara para a luxúria desenfreada por crescimento e expansão, uma luxúria que por fim destrói aquilo que é humano.

Se Macbeth é a tragédia da ambição, Macbett é a farsa da ambição.

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Mário Coutinho é formado em Letras e mestrando em Arqueologia pela Universidade de São Paulo. Traduziu Jane Eyre (Clube de Literatura Clássica, 2022) e ensaia na crítica.



[1] “Menos que Macbeth e maior do que ele. /Não tão feliz e todavia muito mais feliz./Serás tronco de reis, embora a rei não chegues.” I.III. Tradução de Manuel Bandeira. Civilização Brasileira, 1993.

[2] “Não conceba nunca senão filhos varões;/ tua alma indomável o pede assim.” I.VII