[…] Tu as permis ainsi à tes frères de race
De relever la tête et de regarder en face
L’avenir heureux que promet la délivrance.
Les rives du grand fleuve, pleines de promesses
Sont désormais tiennes.
Cette terre et toutes ses richesses
Sont désormais tiennes.
Et là-haut, le soleil de feu dans un ciel sans couleur
De sa chaleur étouffera ta douleur. (Patrice Lumumba, 19591)[1]
No ano de 1959, Patrice Lumumba, o homem negro mais conhecido do mundo à época, publica os versos acima no jornal Indépendance, editado pelo Movimento Nacional Congolês (MNC), organização política da qual ele próprio foi um dos fundadores. Tais versos serão mais tarde retomados e de certa forma traduzidos por Aimé Césaire na peça Uma temporada no Congo. Seu teor fortemente ligado ao discurso da independência e da união africana é testemunho do pensamento político de Lumumba; já sua composição estética aponta para a forma poética com que via o mundo e as transformações necessárias nas relações entre África, Europa e Américas. Pode-se dizer que a elaboração dramática de Césaire buscou plasmar ambos os elementos.
A peça que se segue, talvez por sua extensão, suas frequentes réplicas longas e sua busca inquestionável por retratar um momento histórico, pode fazer parecer que este seja um texto feito apenas para ser lido ou para ser detalhadamente estudado nos ambientes silenciosos das bibliotecas, no conforto de um gabinete. Mas a versão definitiva de Uma temporada no Congo foi escrita para ser encenada; ou melhor, foi coescrita pelo autor, diretor e atores no processo de encenação. A primeira versão da peça data de 1966, tendo sido encenada no ano seguinte pela companhia Serreau-Perinetti com direção de Jean-Marie Serreau no Théâtre de l’Est Parisien.[2] Na ocasião, Serreau também atuou no papel de Dag Hammarskjöld, e coube ao ator franco-senegalês Bachir Touré o papel de Patrice Lumumba. Serreau, ator e diretor francês, tinha experiência na montagem de autores como Molière, Beckett, Genet e Ionesco, mas talvez seus trabalhos mais significativos tenham sido aqueles realizados em colaborações com Aimé Césaire e com o autor argelino Kateb Yacine. A importância dessa encenação é tamanha que as edições impressas da peça, todas publicadas pelas Éditions du Seuil, apresentam uma ficha técnica do espetáculo, o que também é seguido nesta edição.[3] (A atual tradução brasileira se baseia na última versão do texto, datada de 1973.)
Poeta, dramaturgo e político de destaque, Aimé Césaire nasceu em 25 de julho de 1913 na plantation Eyma, em Basse-Pointe, Martinica, departamento francês ultramarino. Em sua obra poética, Césaire evoca as paisagens da região e mostra seu interesse pela fauna e a flora das Antilhas, assim como pela natureza em geral. Na infância, teve contato com histórias de pessoas escravizadas, sua opressão e revolta. Tanto a terra quanto o povo serão temas presentes em toda a obra do escritor. Seu pai, Fernand Elphège Césaire, foi um dos primeiros mestiços a atuar como administrador de fazendas, o que permitiu desde cedo que Césaire compreendesse a dura realidade do trabalho nos campos de cana e o cenário multiétnico da população martiniquense. A família do autor, no entanto, possui origens menos miseráveis se comparadas às de numerosos operários das fábricas e dos campos, possibilitando que Césaire se dedicasse aos estudos. Para isso, vive parte da infância na comuna de Lorrain, onde sua avó Eugénie Macni, chamada pelo poeta de “Man Nini”, foi sua primeira professora. Man Nini aprendeu a ler e a escrever com o marido – o avô do poeta faleceu jovem e era professor de escola primária. Para Césaire, ela representa a África “pura” e perfeita. Em 1924, a família se instala em Fort-de-France devido à evolução profissional do pai e às exigências em relação à educação das crianças – Césaire tinha quatro irmãos e duas irmãs.
De temperamento introvertido, o ainda jovem poeta vive rodeado de livros. Os estudos lhe abrem novos horizontes e, em 1931, chega a Paris para os cursos preparatórios de entrada na prestigiosa École Normale Supérieure. Em Paris, conhece Léopold Sédar Senghor, que se tornará um dos grandes poetas senegaleses e primeiro presidente pós-independência de seu país. Césaire e Senghor, ao lado de Léon-Gontran Damas, vão criar a revista L’Étudiant noir e elaborar o pensamento do movimento filosófico e literário da Negritude. No período de estudos na capital francesa, Césaire conhece sua futura esposa, Suzanne Roussi, também vinda da Martinica. Os dois voltam à ilha natal em 1939 para assumir cargos como professores. Lá, criam a revista Tropiques, que tem como objetivo se posicionar contra o colonialismo e o levante fascista na Europa. Em 1941, por ocasião de uma viagem de navio aos Estados Unidos, em fuga da ocupação nazista na França, André Breton passa por Fort-de-France e, procurando uma fita de cabelo para sua filha, descobre Tropiques em uma
mercearia, abrindo o pensamento da revista para o mundo.
Em 1945, Aimé Césaire inicia sua carreira política, primeiramente como presidente da câmara e prefeito de Fort-de-France e depois como deputado. Dos trabalhos desenvolvidos por Césaire nessa área, destaca-se o texto sobre a departamentalização de algumas das colônias ultramarinas francesas, dentre elas a Martinica. Já no campo literário, apesar de ter uma ampla obra poética, o autor é mais conhecido no Brasil pelo poema em prosa “Diário de um retorno ao país natal” e pelo ensaio Discurso sobre o colonialismo.[4] Seus escritos para o teatro são pouco conhecidos em nosso país: apenas recentemente houve a tradução de duas de suas quatro peças para o português brasileiro.[5]
O presente trabalho é um esforço para preencher essa lacuna. O primeiro texto dramático do autor, Et les Chiens se taisaient, longo poema dramático primeiramente publicado na antologia Les Armes miraculeuses [As armas milagrosas], de 1946, foi relançado em 1953 e 1956 com um subtítulo que indicava tratar-se de uma tragédia. Toussaint Louverture, personagem histórico que teve papel fundamental na independência do Haiti, é retratado como “O Rebelde”, primeiro herói criado pelo dramaturgo a encarnar a aspiração à liberdade e à dignidade humana. Em seguida, no início de 1960, o autor começa a escrita de A tragédia do rei Christophe, peça publicada em 1963, fazendo mais uma vez referência ao Haiti e igualmente baseada em um personagem histórico. A peça conta a história de um antigo escravizado que se torna chefe de um país livre. Ao contrário da anterior, esta é escrita para a cena num processo coletivo, em parceria com o diretor Jean-Marie Serreau, procedimento que será retomado em 1967 na montagem de Uma temporada no Congo, como já descrito. Sua última peça, sugestão do parceiro de cena Serreau, é Une Tempête, publicada em 1969. Trata-se de uma recriação de A tempestade, de William Shakespeare, na qual Césaire representa a luta do povo negro estadunidense ao atualizar a relação senhor/escravo.
Um ponto comum a seus textos dramáticos, todos eles tragédias, é a presença de um herói visionário como protagonista. “O Rebelde”, Christophe, Lumumba e Calibã são heróis trágicos que fazem alusão a personagens históricos: Toussaint Louverture e Christophe nas Antilhas, Lumumba em África e Martin Luther King Jr. e Malcolm X nos Estados Unidos.
[1] […] Possibilitaste assim a teus irmãos de raça / Levantar a cabeça e olhar face a face / O afortunado porvir que promete a liberdade. / As margens do grande rio, cheias de promessas / São agora tuas. / Esta terra e todas as suas riquezas / São agora tuas. / E lá em cima, o sol de fogo num céu sem cor / Com seu calor sufocará tua dor. In. Rodrigue Buchakuzi Kanefu (Ed.), Pleure, ô Noir, frère bien-aimé: Anthologie de textes de Patrice-Émery Lumumba, Premier Ministre de la RD Congo 1960–61 [Chora, ô Negro, amado irmão: antologia de textos de Patrice-Émery Lumumba, primeiro-ministro da República Democrática do Congo 1960–61]. Genebra: Globethics.net, 2015, p. 82.
[2] Paralelamente à montagem de Serreau em Paris, houve a iniciativa do diretor belga Rudi Barnet. Barnet relata, no artigo “Une saison au Congo: souvenirs de la saga”, publicado em 20 de novembro de 2018 na revista Bruxelles en mouvements, que teve contato com a peça em 1965 e que se interessou imediatamente pelo seu conteúdo. Segundo ele, o texto tratava Patrice Lumumba de forma muito distinta daquela como a imprensa belga o apresentava à época: um monstro sanguinário. Após tentativas de colaboração com Serreau para uma montagem, ele estreia a peça em Bruxelas em 20 de março de 1967 sob fortes manifestações contrárias e silenciamento completo por parte da imprensa belga.
[3] O volume da Temporal apresenta os créditos completos desta e de outras montagens importantes da peça na seção “Anexos”.
[4] Aimé Césaire, Cahier d’un Retour au pays natal / Diário de um retorno ao país natal. Tradução de Lilian Pestre de Almeida. São Paulo: Edusp, 2021. Id. Discurso sobre o colonialismo. Tradução de Claudio Willer e ilustrações de Marcelo D’Salete. São Paulo: Veneta, 2020.
[5] Além de Uma temporada no Congo, que agora se apresenta ao público brasileiro, a editora Cobogó publicou recentemente a peça A tragédia do rei Christophe no volume Textos escolhidos: A tragédia do rei Christophe, Discurso sobre o colonialismo, Discurso sobre a negritude (Tradução de Sebastião Nascimento. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022). A Temporal ainda conta com mais duas peças do autor no prelo, são elas: Une Tempête e Et les Chiens se taisent. [Nota da edição.]
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João Vicente é doutor em literatura pela Universidade de Brasília (UnB), com tese sobre romances em francês de autoras africanas
contemporâneas. Tem formação em letras: português, francês e inglês. Atua como professor de língua francesa na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Suas principais áreas de interesse são o ensino de línguas e literatura, crítica literária e tradução, tendo traduzido artigos e capítulos de livros.
Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani é professora do Instituto Federal de Brasília (IFB) e pesquisadora colaboradora sênior do
Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Realiza pesquisas sobre as relações entre a literatura
e as artes visuais (intermidialidade, transmidialidade, obras híbridas etc.). Fez pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade de Brasília (2021).
Maria da Glória Magalhães dos Reis é professora associada do Departamento de Teoria Literária e Literaturas (TEL) e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Realiza pesquisas sobre as dramaturgias contemporâneas na África subsaariana de língua francesa, o teatro bilíngue (português-Libras, português-francês) e as temáticas interdisciplinares envolvendo as áreas de literatura, educação e teatro. Fez pós-doutorado em teatro e educação na Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (2016) e desenvolveu estudos em parceria com o Laboratório SeFeA – Scènes Francophones et Écritures de l’Altérité –, dirigido por Sylvie Chalaye, da Université Sorbonne Nouvelle Paris III. Pertence à Rede PICNAB, Programa Internacional de Pesquisa com as Universidades de Aveiro (Portugal) e Nantes (França).
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