Dramas para negros e prólogo para brancos volta às estantes após mais de 60 anos
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Dramas para negros e prólogo para brancos volta às estantes após mais de 60 anos

por TÚLIO CUSTÓDIO | No ano em que o Teatro Experimental do Negro completa 80 anos, Dramas para Negros e Prólogo para Brancos retorna às estantes após 60 anos desde sua primeira edição. A antologia, que reúne diferentes autores e nove peças, todas escritas para encenação do TEN, organizada por Abdias Nascimento, é uma obra fundamental para compreender e explorar um projeto de dramaturgia que visava afirmar, dentre seus propósitos, a identidade e a cultura negra. Confira o texto de Túlio Custódio, sociólogo e sócio da Inesplorato, e conheça mais sobre o projeto!

O relançamento de Dramas para Negros e Prólogo para Brancos, obra publicada originalmente em 1961 pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), oferece ao público contemporâneo uma oportunidade única de redescobrir as raízes do teatro negro no Brasil e o pensamento crítico de Abdias Nascimento. Este livro é uma antologia de peças que marcaram o teatro negro brasileiro e um importante documento histórico que registra a luta por representatividade e justiça racial no país.

Mas aqui vou focar na introdução escrita por Nascimento. A introdução, intitulada "Prólogo para Brancos", é um texto provocador e intencionalmente direcionado ao público branco, que muitas vezes desconhecia ou ignorava a existência de um teatro negro. Abdias Nascimento usa essa introdução como uma janela para revelar as expectativas e o posicionamento do TEN no cenário cultural brasileiro, ancorando-se na noção de negritude e conectando a atuação do grupo a um contexto mais amplo e internacional.

Dois aspectos desta introdução merecem destaque. Primeiro, o modo como Abdias articula um conjunto de referências e autores, conferindo ao texto uma base teórica sólida que o aproxima de uma produção acadêmica. Isso mostra o rigor e a profundidade com que Abdias abordava as questões raciais e culturais, sempre atento a conectar o teatro negro a uma tradição intelectual e artística que ultrapassava as fronteiras nacionais. Em segundo lugar, a forma como Abdias insere o teatro negro brasileiro em uma linhagem histórica que se conecta a outras experiências de teatros negros, como o norte-americano, o africano, o francês e o cubano, revela a intenção de situar o TEN dentro de uma tradição global de resistência e afirmação cultural.

Entre as referências mobilizadas por Abdias, destaca-se o uso do conceito de “transculturação” do antropólogo cubano Fernando Ortiz. A presença dessa referência é significativa, pois indica um momento de contato entre Abdias e o pensamento latino-americano sobre cultura e identidade, que provavelmente se deu em sua passagem por Cuba em 1960. A obra de Ortiz fornece a Abdias uma base conceitual para pensar o teatro negro como uma expressão cultural de origem africana, marcada pelo ritmo, pela dança e pelas tradições orais.

Ao conectar o teatro negro brasileiro a essa herança da negritude, Abdias amplia o alcance de sua visão para além das fronteiras brasileiras, buscando traçar uma “esteira histórica” de pertencimento cultural. Seu propósito é situar o teatro do TEN dentro de um movimento de fazer-negro global, onde as práticas teatrais negras encontram ressonância em diferentes partes do mundo. Essa perspectiva é reveladora de um Abdias que, já na década de 1960, buscava romper com a ideia de uma excepcionalidade brasileira e aproximar as lutas e expressões culturais negras do Brasil com aquelas da diáspora africana.

Por meio deste “Prólogo para Brancos”, Abdias Nascimento articula um projeto que não só visava afirmar a identidade e a cultura negras, mas também questionar o pacto racial brasileiro, que frequentemente colocava a ideia de democracia racial como um mito que silenciava as desigualdades. Abdias estava, naquele momento, reavaliando o olhar local a partir de matrizes globais, com uma consciência cada vez mais ampla de que a luta pela igualdade racial no Brasil se conectava às lutas de povos negros em outros países.

Essa nova edição de Dramas para Negros e Prólogo para Brancos oferece uma visão complexa e multifacetada do pensamento de Abdias Nascimento e das dinâmicas de resistência cultural do teatro negro. Ao revisitar essa obra, leitores poderão se deparar com uma narrativa artística e política que questiona, provoca e inspira, reafirmando o legado de Abdias como um dos grandes intelectuais e ativistas da causa negra no Brasil. Essa obra é, em essência, um convite à reflexão sobre a negritude e a importância de reconhecermos e celebrarmos a diversidade cultural do Brasil.

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Túlio Custódio é sociólogo e sócio da Inesplorato.