As sendas das encruzilhadas
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As sendas das encruzilhadas

quarta capa de GENI NÚÑEZ – Em celebração à chegada de Kossi Efoui ao catálogo da Temporal, escritor togolês até então inédito no Brasil, o Blog de hoje traz às nossas leitoras e leitores, em primeira mão, um dos textos que integram a edição de "A encruzilhada", primeiro lançamento de 2023: a quarta capa do volume, escrita pela psicóloga, mestre e doutora em Psicologia Social, Geni Núñez

Um dos presentes mais lindos deste livro é o abraço, o acolhimento que ele nos dá em resposta às angústias impostas pela colonização. Entre as maiores feridas do processo colonial, uma delas talvez seja justamente nos acreditarmos sozinhas e sozinhos em nossas dores. É nessa encruzilhada que Kossi Efoui generosamente nos ampara, nesse reconhecimento de que aquilo que vivemos é, sim, singular, mas não individual; de que o que acontece lá, em África, também se repete aqui, à sua maneira. O autor togolês nos lembra de que há um pouco da gente em cada dor, assim como existe muito de nós em cada abrigo. A poética que adorna cada frase dita pelos personagens desta peça não ameniza a dureza do real, tampouco minimiza a ternura das sutilezas. O fio é sempre o tempo. Se somos contrários a um futuro assim único, previamente traçado e determinado, quais outros futuros poderemos ter? Como sair desse ciclo colonial que se repete de forma tão traumática e nos faz esquecer, de novo, nossas falas, nossos nomes? É inconcebível admitir que o único caminho possível para não viver essa agonia seja não sentir nada, ter os poros fechados para os suspiros do mundo, como diria Frantz Fanon. Em busca de outros futuros, temos medo, nos mostra este autor, mas também temos memória. E por ela e para ela, por quem veio e por quem virá, é urgente que digamos “sim” ao pedido da personagem que ousa exigir mais uma chance, uma só, de podermos existir para além do dilaceramento do mundo.

 

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Indígena guarani, anticolonial, Geni Núñez (@genipapos) é mestre e doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. Fala sobre afetos a partir de uma perspectiva psicossocial, decolonial e contra toda monocultura.