Ainda que Nora deixe a Casa de Bonecas
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Ainda que Nora deixe a Casa de Bonecas

artigo por ANGÉLICA CIGOLI FRANGELLA | Para finalizar setembro, Angélica Cigoli Frangella, graduanda em Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), escreve sobre as relações entre "Uma Casa de Bonecas", peça de Henrik Ibsen, e "O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades", de Elfriede Jelinek, que dá continuidade às reflexões do dramaturgo norueguês. O texto teatral de Jelinek, autora austríaca vencedora do Prêmio Nobel e publicada pela Temporal em 2022, coloca o capitalismo e as discussões sobre o papel social das mulheres sob os holofotes. Confira!

Não é incomum terminarmos um livro e nos depararmos com um fim “em aberto”, desconfortável, daqueles que fazem com que fiquemos pensando e teorizando sequências para preencher não apenas aquela aparente lacuna narrativa, como também o próprio espaço forjado pelo leitor que almeja um final conclusivo. Uma Casa de Bonecas, peça teatral de Henrik Ibsen, é um desses escritos que terminam envoltos em mistério; daqueles que não fornecem as diversas respostas advindas das diversas perguntas colocadas ao longo da narrativa – às vezes, e a literatura nos prova este fato, é mais importante conviver com a pergunta do que obter uma resposta a ela. Essa sede de pensar nos episódios posteriores aos parágrafos ou às falas finais não é característica apenas de leitores comuns, como nós: tal inquietação também é cara a uma certa escritora austríaca, vencedora do Nobel de Literatura em 2004. Elfriede Jelinek, autora de O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades – peça inédita em português brasileiro publicada pela Temporal em abril de 2023 –, parte igualmente desse estímulo, dessa curiosidade, ainda que seu interesse acabe se convertendo numa crítica a ser feita a partir do texto de Ibsen.

Antes de falar sobre Jelinek, é interessante retomar alguns pontos de Uma Casa de Bonecas para entender o caminho percorrido pela protagonista Nora. Em cena, Ibsen coloca uma típica família do século 19: o marido, Torvald, trabalha para sustentar esposa e filhos, enquanto a esposa – justamente nossa protagonista, Nora – deve manter sua pose de boa moça diante da sociedade de seu tempo. Isto é, se ela continuasse a aceitar as censuras e manipulações, Nora poderia continuar a fazer parte da casa de bonecas construída pelo marido. O que Ibsen deseja demonstrar a seus leitores/espectadores é a superficialidade daquele ambiente, daquele contexto social. Vale pontuar aqui que o dramaturgo, do ponto de vista da crítica, demonstrava estar muito à frente de seu tempo.

Em Ibsen, Nora, após enfrentar alguns sacrifícios e inúmeros dramas em sua trajetória, passa finalmente a enxergar a triste realidade que a cercava: se qualquer ato seu escapasse ao que era artificialmente previsto pelo marido, ela de imediato deixaria de ser suficiente para aquele lar. Em certa altura da peça, Torvald critica Nora de forma grosseira e escancara o fato de que seu amor matrimonial só era suficiente para atiçar seu coração caso a relação com Nora o recompensasse em termos morais previstos pelos indivíduos da bolha social em que vivia. Ainda que Nora tentasse aprender a dançar uma vida de aparências – da mesma forma como ela se esforçava para dançar a Tarantella para agradar o marido –, ela definitivamente não era uma boneca impecável. Assim, decide abandonar seu lar, seus filhos e marido; Nora finalmente deixaria a casa de bonecas.

Para o leitor/espectador, o final que intriga acontece com a saída de Nora e a rubrica que se segue à cena, indicando que tudo o que se ouvia no palco, nesse momento, era o portão da casa que se fechava. Ainda que a noção de partida seja bastante recompensadora, é inevitável não sentir um borbulhar de dúvidas: para onde Nora irá? Será que ela conseguirá seguir seu rumo e abandonar a família? Como irá se sair em uma sociedade que não encara com bons olhos uma mulher que deixa de cuidar de seu lar de forma repentina?

São essas as questões que impulsionam Elfriede Jelinek a moldar a sua própria Nora em um drama secundário (ou seja, uma peça que se desenrola a partir de outra). A autora coloca em cena o tortuoso caminho percorrido por uma mulher que tenta escapar através da fresta da redoma do patriarcado que paira sobre si. Poderia ser interessante – e até um grande alívio, sobretudo para as leitoras de Jelinek – que Nora conquistasse sua independência. No entanto, se a protagonista obtivesse êxito em sua jornada, Jelinek estaria sendo otimista demais; e todos sabem que os obstáculos da vida de uma mulher não são poucos, sobretudo diante uma existência inteira cerceada pelo marido. E o plano da autora é justamente criticar essa realidade: ainda que as mulheres tentem caminhar com seus próprios pés, a sociedade, a política e a economia continuam, na maioria dos casos, a ser fatores limitadores.

Na peça de Jelinek, ao sair da casa de bonecas, Nora passa a trabalhar em uma fábrica ao lado de outras mulheres, operárias, que, ao contrário dela, nunca pertenceram a uma família abastada e creem que a nova companheira devia voltar ao seu lar aparentemente perfeito. Muitas ainda desabafam sobre o pouquíssimo tempo disponível para aproveitar a presença dos filhos, e essas visões contrárias fomentam a crítica da autora sobre como, independentemente da realidade, as mulheres estão acorrentadas a infinitos desafios. A corrida das mulheres se inicia muito tempo após ser dada a largada dos homens.

Neste ponto, vale ressaltar que Jelinek não discute apenas as questões sociais historicamente intrincadas. A autora defende o ponto de vista de que as mulheres – conscientemente ou não – acabam por contribuir, em alguns casos, com a perpetuação do patriarcado, visto que se soltar desse sistema é como uma luta que apenas os homens aprenderam a vencer.

Em determinado momento, Nora passa a enxergar a independência, ainda que sob outros pontos de vista, como algo semelhante à sobrevivência, estado a que era submetida anteriormente. Ainda que Nora saia da Casa de Bonecas, a junção capitalismo e patriarcado seguirão existindo. Ainda que a protagonista tenha sido ousada ao deixar o que era tido como moralmente correto, a coragem não é suficiente em um mundo regido por homens poderosos. Quando se fecham as cortinas do espetáculo, fica no espectador um sentimento amargo pelo entendimento de que o que foi colocado no palco ultrapassa aquele espaço e a atuação da atriz, escapando à realidade das mulheres.

Não por acaso, Elfriede Jelinek foi a primeira autora austríaca a receber o Nobel de Literatura e continua a conquistar leitoras e leitores a cada ato escrito. Seus textos, críticos por excelência, escancaram de forma visceral a contemporaneidade.

 

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Angélica Cigoli Frangella é estudante de Letras (Habilitação Português) na Universidade de São Paulo. É criadora da página Sopro das Musas e colabora para blogs especializados em literatura. Na Temporal, é estagiária de comunicação e editorial.