Aimé-Exu-Césaire: a construção da negritude ontem com a partir do texto-colonial hoje-
- crítica teatral

Aimé-Exu-Césaire: a construção da negritude ontem com a partir do texto-colonial hoje-

artigo por MARIA CAROLINA CASATI | Explorando a peça Uma tempestade, de Aimé Césaire, Maria Carolina Casati investiga as complexidades do colonialismo e da usurpação que o autor martinicano reinterpreta a partir de A Tempestade de William Shakespeare. Além disso, Casati destaca uma mudança crucial na perspectiva introduzida por Césaire: sua obra evidencia a presença significativa de Exu.

Em A tempestade (1611, 2002), Shakespeare apresenta mais uma história de traição e usurpação. Próspero, duque de Milão, é traído pelo irmão, Antonio, e destronado por Alonso, rei de Nápoles, após os dois se aliarem. Acusado de bruxaria, o rei e sua filha, Miranda, são lançados ao mar e, ao chegarem em uma ilha, escravizam os dois únicos moradores do local, Calibã e Ariel.

Em 1969, Aimé Césaire lança a releitura Uma tempestade. Nascido na Martinica, em 26 de junho de 1913, o poeta, escritor, dramaturgo e político funda o jornal O estudante negro junto aos seus amigos atilo-guianeses e africanos (Léon Gontran Damas, os senegaleses Léopold Sédar Senghor e Birago Diop). É nele que surge, pela primeira vez, o termo negritude. De fato, ele é, ao lado de Franz Fanon, um dos intelectuais negros mais importantes de nossa época. Não à toa, pensadoras como Françoise Vergès o usam como base das próprias conceitualizações.

De acordo com Kabengele Munanga (2023), “a negritude é o simples reconhecimento do fato de ser negro, a aceitação do seu destino, de sua história, de sua cultura”. Posteriormente, negritude será definida por Aimé Césaire em três palavras: identidade, fidelidade e solidariedade. 

“A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a condição do negro, em dizer com cabeça erguida: sou negro. A palavra foi despojada de tudo o que carregava no passado, como desprezo, transformando esse último numa fonte de orgulho para o negro. A fidelidade repousa numa ligação com a terra-mãe, cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade. A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los e a preservar nossa identidade comum. Césaire rejeita todas as máscaras brancas que o negro usava e faziam dele uma personalidade emprestada. [...] A negritude aparece aqui como uma operação de desintoxicação semântica e de constituição de um novo lugar de inteligibilidade da relação consigo, com os outros e com o mundo” 

É possível afirmar que Uma tempestade é mais do que uma releitura de Shakespeare; trata-se de um texto no qual ele metaforiza sua teoria sobre ser um homem negro proveniente de um país colonizado. Assim, Uma tempestade se torna uma grande alegoria teórica sobre colonização, negritude e escravização.

É interessante notar, por exemplo, como Próspero passa de (quase) desumanizado – uma vez que é punido por ser “super-humano”, por ter poderes mágicos – assim como aconteceu com os povos escravizados em África e nas Américas pelos europeus para colonizador-senhor-de-escravos ao transformar os donos da terra – Calibã e Ariel – em seus vassalos. Ele promove verdadeira colonização na ilha do filho de Sycorax.

Os dois moradores da ilha, aliás, ao serem retratados como pessoas negras, também reforçam essa “construção teórica” por meio das imagens. Ariel, de pela mais clara, “etnicamente um mulato”, se deixa levar pelos benefícios do colorismo e, diante das promessas de liberdade, se alia a Próspero.

Neusa Santos Souza (2021) afirma que o negro brasileiro “não possui uma identidade positiva, a qual posso afirmar ou negar”, pois, neste país, “nascer com a pele preta e/ou outros traços caracteres do tipo negroide e compartilhar de uma mesma história de desenraizamento, escravidão e discriminação racial não organizam, por si só, uma identidade negra”. Ainda de acordo com a psiquiatra e psicanalista, ser negro é “tomar consciência do processo ideológico que, através de um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. [...] Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro” (SANTOS, 2021, p. 115). 

Ora, Ariel acredita realmente que pode se tornar “quase um deles”, acredita que seja possível transformar Próspero. Ele diz a Calibã: “Precisamos perturbar sua serenidade [de Próspero] até que ele reconheça, enfim, a existência da sua própria injustiça, e que ele acabe com isso de vez. [...] é preciso trabalhar para lhe dar uma consciência. Eu não luto apenas por minha liberdade, por nossa liberdade, mas também por Próspero, para que uma consciência nasça dentro dele. Ajude-me, Calibã”.

Ao contrário de Ariel, para quem “tornar-se negro” significa praticamente se transformar em (quase) branco, Calibã (o “escravo negro”) tem total entendimento da sua negritude e sabe que não é possível uma aliança com a branquitude. Em dado momento da peça, rejeita o nome que lhe foi dado (que remete a canibalismo, o que reforça o sentido monstruoso que lhe é atribuído) e comunica Próspero que, a partir daquele momento, só responderá quando for chamado de X (alô, Malcom X). É essa forma que ele responde a Ariel: “Não me faça rir! A consciência de Próspero! Próspero é um velho inescrupuloso que não tem consciência [...] Mais vale a morte do que a humilhação e a injustiça...”. 

Algumas mudanças na estrutura da peça reiteram o caráter político e provocativo da obra. Em A tempestade, Próspero e os demais personagens europeus retornam ao Velho Mundo depois do casamento de Ferdinand e Miranda, em uma solução que agrada a todos eles. Aqui, ele permanece com Calibã/X numa relação ainda mais complicada, uma vez que o nobre dá sinais de senilidade e loucura e X não aceita mais ser escravizado.

Outra alteração muito significativa é a presença de Exu “deus-diabo negro” ao lado dos deuses de tradição greco-romana. Essa inserção é especialmente importante para reforçar o caráter contra-colonial (salve, Nego Bispo!) do texto de Aimé Césaire. Se o texto se comporta como uma alegoria de sua teoria acerca da colonização e da negritude, é fundamental que divindades africanas também figurem da narrativa. Ter Exu na história é mais um indicativo de como esse intelectual via a ancestralidade, bem como as tradições tão basilares para povos da diáspora. 

“Exu! A pedra que ele lançou ontem

                Mata o pássaro hoje.

                Da desordem faz a ordem, da ordem,
                                                          [desordem!” 

Aimé Césaire faz teoria-poesia do texto-colonial. Laroyê!


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BISPO DOS SANTOS, Antônio, A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

SHAKESPEARE, W. A tempestade. Porto Alegre: L&M Pocket, 2002.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

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Maria Carolina Casati é professora, escritora, membra do GEPHOM e doutoranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, no Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política, no qual, financiada pela CAPES, desenvolve pesquisa com brasileiras negras que se relacionam com homens italianos. Apaixonada pela palavra, é idealizadora do encruzilinhas, um projeto de leitura e debate de textos sobre negritude, gênero, feminismos e militância. É mãe do TumTum, filha de Figênia e Brogio, neta de Zelia e amiga de muitas, mas, primeiramente, do G7.