A pluralidade teatral de Elfriede Jelinek, segundo Bettina Hering
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A pluralidade teatral de Elfriede Jelinek, segundo Bettina Hering

parte II: artigo por BETTINA HERING | Segunda parte da série de três publicações dedicadas à leitura de Bettina Hering a respeito da obra e da figura de Elfriede Jelinek. A fala aqui transcrita se deu ao longo dos eventos de lançamento de "O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades", da Nobel de Literatura Jelinek, realizados com o apoio da Embaixada Austríaca e do Centro Austríaco da UFPR e dos institutos Goethe de São Paulo, Brasília e Curitiba. Dramaturga e curadora teatral do Festival de Salzburgo, Bettina trouxe ao público uma análise comparada entre as personalidades de Henrik Ibsen e Elfriede Jelinek e alguns dos aspectos de suas respectivas obras. Confira!

Por onde começar a falar sobre Elfriede Jelinek num sentido histórico bem definido?

Talvez começar no ano de 1995 durante a campanha eleitoral do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) – o maior partido da direita austríaca – que, no auge de sua popularidade, deu início a uma guerra cultural e distribuiu por toda a cidade cartazes que estampavam a seguinte pergunta: “Você ama Scholten (então Ministro da Cultura do Partido Social Democrata austríaco), Jelinek, Häupl (então Prefeito de Viena, também socialista), Peymann (então diretor do Burgtheater), Pasterk (então Conselheiro Municipal)... ou arte e cultura?”. Quase nenhum artista ou personalidade pública da época teve coragem de defender Elfriede Jelinek, que foi a única mulher artista que entrou na mira da direita. Essa perseguição foi reveladora e foi iniciada a partir do argumento moralista de que Jelinek era, afinal de contas, uma artista “que suja o próprio ninho”. A escritora sentiu esses ataques como uma típica e total desvalorização própria, como artista e como mulher. Tudo isso levou à sua retirada da vida pública austríaca e a uma proibição temporária da apresentação de suas peças no país.

Ou seria melhor começar pelo Prêmio Nobel, de 2004, dedicado a ela menos de nove anos após essa horrível campanha dos cartazes? Jelinek recebeu a maior das distinções literárias com a seguinte justificativa: o prêmio seria concedido “pelo fluxo musical de vozes e contravozes [presente] em seus romances e dramas”, nos quais expõe “o absurdo dos clichês sociais e seu poder subjugador”; elogiou-se explicitamente sua “paixão linguística”.

Ou, ainda, devo começar com a mulher nascida em 1946 no interior da Áustria, em Mürzzuschlag, como projeto de uma mãe que queria transformar a filha num milagre musical? Com apenas 13 anos, Jelinek foi obrigada a estudar órgão, piano, flauta doce e composição, e sua musicalidade foi e continua sendo um elemento importante e marcante em sua vida literária.

Elfriede Jelinek é sempre mais do que se pensa, ouve ou lê.

Desde 1966, trabalha como escritora autônoma. Desde seu casamento com Gottfried Hüngsberg, um cientista da computação que faleceu há pouco tempo, a autora viveu alternadamente em Munique e Viena. Seu último romance, Unter Angabe der person (2022), que foi adaptado para o teatro há alguns meses e estreou em Berlim, parte de sua história de vida, em especial do episódio em que autoridades tributárias alemãs iniciaram uma investigação fiscal contra ela e confiscaram todos os seus documentos, anotações, tanto de natureza privada quando textos literários em andamento. Uma eterna caçada que ficou sem resultado.

Elfriede Jelinek produziu até hoje uma obra extremamente diversificada. Um exemplo bem conhecido é o romance A professora de piano, adaptado para o cinema pelo famoso diretor austríaco Michael Haneke, e protagonizado por uma das atrizes mais famosas do cinema europeu, Isabelle Huppert. O filme recebeu diversos prêmios.

A primeira fase da sua obra, fortemente influenciada por sua orientação marxista, critica sobretudo a sociedade de consumo, com seus excessos, e o capitalismo como o motor central da destruição social. A autora ainda retrata, em seu romance Os excluídos, a juventude do pós-guerra em Viena que despreza a geração de seus pais, marcada pela culpa, e se vinga brutalmente deste mundo em que nasceu. A partir do final dos anos 1970, com O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades, ela dirige sua atenção para a sociedade dominada pelo patriarcado. Em seu romance Desejo – que causou um grande escândalo – e em suas peças Doença ou mulheres modernas, Clara S. e outras, a autora retrata mulheres que não conseguem encontrar uma saída para os mecanismos de opressão ou, no pior dos casos, conseguem apenas viver ao copiá-los. Um tópos muito importante na obra de Jelinek é a mulher como um ser sem nenhuma liberdade, sem perspectivas de alguma mudança sistêmica e, portanto, muitas vezes com marcas psicopatológicas.

A partir do final dos anos 1980, Jelinek se dedica ao fascismo austríaco e ao antissemitismo de sua época; a peça Rechnitz (O anjo exterminador), que se baseia em um incidente histórico real da Segunda Guerra Mundial, é apenas uma das obras com esse foco. No texto de teatro Águas negras, de 2020, a autora aborda a atual situação política austríaca, que ela classifica como tóxica – não sem razão, aliás. Em sua última peça Sol, vamos lá!, ela inventa um monólogo para o sol, que em meio à mudança climática lida com as aberrações da humanidade. Como é possível perceber, a variedade de temas se refere sempre a assuntos atuais e tem um espectro bem amplo.

Elfriede Jelinek afirma: “Eu não quero teatro, eu quero um teatro diferente, eu me concentro sempre na linguagem. No teatro, há muita demanda por pessoas vivas que têm um caráter e são diferenciadas. Mas isso não me interessa”. Segundo Roberto Nicoli, Jelinek adota uma abordagem radical que se afasta evidentemente do conceito de teatro de outros autores. “Eu rejeito o desejo de criar vida no teatro, que tem atraído quase todos os autores. Quero exatamente o oposto: produzir o inanimado. Quero expulsar a vida do teatro. Eu não quero teatro”. Além disso, segundo Nicoli, Elfriede Jelinek está menos interessada no resultado de sua produção teatral e mais nos processos e dinâmicas que ela provoca: “Dizem que o teatro ganha vida em espetáculos particularmente bem-sucedidos; no meu caso, a vida já é consumida, talvez completamente sem sentido. O que me interessa não é o que resta, mas o consumo em si”.

Atualmente, ela escreve para o teatro em forma de “superfícies textuais”. São textos sem personagens e falas definidas, brilhantes obras de arte linguísticas, incrivelmente ricas em citações e alusões, com piadas profundas e banais, trocadilhos e sarcasmos pesados. E a autora dá liberdade total aos encenadores para eles fazerem o que quiserem com esses textos; cortes, reorganizar tudo, intervir, acrescentar... Jelinek realmente liberta os textos e as respectivas dinâmicas e abordagens dos diferentes artistas e permite, assim, produções de uma enorme diversidade.

Uma obra a parte são os ensaios de Elfriede Jelinek. Ela se posiciona frequentemente sobre política e sociedade, sobre a Áustria, sobre a arte em suas diversas manifestações, de maneira pontual, com astúcia, precisão e agudeza. Você pode acessar esses texto em seu site, onde estão acessíveis de modo gratuito.

Além disso, a autora fez traduções do inglês, espanhol e francês, que são muito encenadas e lidas, além de lendárias por sua excelência e competência linguística. Também publicou alguns roteiros que foram usados como bases para filmes, alguns poucos libreti e inúmeras peças radiofônicas.

É uma imensa sorte para a Áustria poder contar com uma autora tão analítica e inovadora e que, há décadas, vem examinando a mentalidade, a situação sociopolítica e o desenvolvimento desse país, sempre com referência aos acontecimentos atuais. Isso nem sempre é agradável e indolor – mas pode ser muitas vezes incrivelmente divertido.

Além disso, a Associação Interinstitucional de Pesquisa da Universidade de Viena e da Universidade Particular de Música e Arte da cidade de Viena criaram uma plataforma virtual que estuda e pesquisa o trabalho de Jelinek num contexto internacional. Isso é extremamente raro em casos de autores ainda vivos. São frequentes também os eventos organizados pela associação sobre a obra de Jelinek.

O fato de Elfriede Jelinek ter sido denunciada na mídia e de ter ganho apelidos como “inimiga do Estado”, “autora pornográfica”, ter sido definida como uma figura irritante e escandalosa, bem como uma mulher completamente frustrada, criando rimas com e seu nome e o termo alemão de “lixo” (Dreck), é uma história trágica que mostra que a arte não é livre ou só pode ser realizada se assumir o risco de forma radical como Jelinek o faz.

Felizmente, sua retirada radical da esfera pública em resposta a tudo isso não resultou em um silêncio literário. Pois Elfriede Jelinek é uma das grandes figuras literárias mundiais – com um jeito austríaco.

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Bettina Hering é curadora teatral do Festival de Salzburgo, um dos maiores eventos de teatro da Europa. Formada em Filosofia e Psicologia, passou por diversas instituições teatrais, entre elas a Deutsches Schauspielhaus, e pela companhia de teatro de Frankfurt Städtische Bühnen. Trabalhou ao lado de diretores renomados como Peter Palitzsch, Einar Schleef e Hans-Jürgen Syberberg. Desde 1991, mora em Viena, onde já trabalhou como encenadora e dramaturgista.