No Houaiss (2010, p. 293):
en.cru.zi.lha.da s.f. 1. ponto em que dois caminhos ou ruas se cruzam. 2. fig. momento em que uma decisão deve ser tomada.
Para Luiz Rufino:
“A encruzilhada é a boca do mundo, é saber praticado nas margens por inúmeros seres que fazem tecnologias e poéticas de espantar a escassez [...]. A diáspora africana é uma encruzilhada, acontecimento marcado pela tragédia, mas ressignificado pela necessidade de invenção. Assim, configura-se também como um acontecimento que vem a encruzar inúmeros saberes, recolhe-se os muitos fios das experiências negro-africanas que foram desalinhados forçadamente para realinhavá-los”.[i]
No texto de Kossi Efoui, a encruzilhada se apresenta como possibilidade única de existência; única, pois plural. Com traços autobiográficos, a primeira peça teatral do autor togolês discute o que as ditaduras, a perseguição política e a impossibilidade de significar o mundo a partir de uma perspectiva particular podem fazer na vida de um ser humano.
No palco, o Ponto, a Mulher, o Poeta e o Cana se cruzam, confrontam e confortam numa dança que pretende, ainda que aparentemente se faça muitas vezes fora do ritmo, permitir que as opções não sejam fatais. “Encruzilhada também é possibilidade de retornar e fazer outas escolhas”, diz Pai Sidney de Xangô.
A narrativa de Kossi Efoui, que por vezes beira o onírico, traz discussões contundentes também sobre gênero, política e raça.
Mulher Eu nunca tive escolha. Sou mulher. Nasci no esquartejamento...
[...] Eu sou a mulher-escapatória, a mulher-ópio.
[...] A mulher-vaca. Nasci nesta engorda, para...[ii]
Nesta encruzilhada-de-Efoui, seria a Mulher uma pomba-gira? Seria o Poeta um grande Exu? Dono da encruzilhada, mas também demonizado por aqueles que não o conhecem, o executor das ordens divinas nos ensina a “buscar uma constante e inacabada reflexão sobre nossos atos. É por isso que “[...] é tão perigoso para esse mundo monológico e para uma sociedade irresponsável com o que se exercita enquanto vida”.[iii] Exu é perigoso. A arte é perigosa. O Poeta é perigoso:
Suspeito. Suspeito. De novo esta palavra.
Por mais que eu tente me lembrar, é sempre
o mesmo roteiro, o mesmo. Narinas atiçadas
como as de um buldogue que fareja carne
estragada. Suspeito.[iv]
Porém, aqui, corpo também é encruzilhada de membros, órgãos, narrativas e afetos. Corpo também é tela, suporte, folha para se escrever novas escolhas-histórias – ainda que com sangue, suor, lágrimas... Mas, gozo também é tinta!
“A encruzilhada de Exu atravessada pela noção de diáspora transgride a de produção de não presenças, de subalternidades e violências por parte do colonialismo, para a emergência de possibilidades, reinvenções e mobilidade [...].”[v] A encruzilhada-de-Efoui (nos) permite fazer escolhas outras, ela se apresenta como “campo de possibilidades e formas de reinvenção da vida”.[vi]. Laroyê!
[i] Luiz Rufino, Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: mórula editorial, 2019, p. 100.
[ii] Kossi Efoui, A encruzilhada. Tradução e prefácio de João Vicente, Juliana Estanislau Mantovani e Maria da Glória Magalhães dos Reis. São Paulo: Temporal, 2023, p. 44.
[iii] Luiz Rufino, op. cit., 2019.
[iv] Kossi Efoui, A encruzilhada, ibid., p. 36.
[v] Luiz Rufino, op. cit., 2019, p. 106.
[vi] Ibid.
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Maria Carolina Casati é professora, escritora, membra do GEPHOM e doutoranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, no Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política, no qual, financiada pela CAPES, desenvolve pesquisa com brasileiras negras que se relacionam com homens italianos. Apaixonada pela palavra, é idealizadora do encruzilinhas, um projeto de leitura e debate de textos sobre negritude, gênero, feminismos e militância. É mãe do TumTum, filha de Figênia e Brogio, neta de Zelia e amiga de muitas, mas, primeiramente, do G7.