Há perguntas que parecem mansas e deixam a gente morar um pouco no silêncio, mas logo entendemos por que são essas as piores. Na verdade, ficam sorrateiramente vasculhando os nossos baús de espanto enquanto procuramos uma frase para começar. Pois bem, “por que-ler-dramaturgia?”, essa indagação, que parecia mansa, me fez pensar em dois momentos de assombro como leitora.
O primeiro deles. Final dos anos 1990. Me lembro do sobressalto de quando terminei de ler a peça Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Só muitos anos depois, consegui definir aquele sentimento: choque estético. “Godot” transformou (quase) tudo o que eu pensava sobre dramaturgia, me ensinando que essa é uma escrita em movimento. Recentemente, ao conhecer a biografia de Beckett, Damned to fame, de James Knowlson (editora Grove Press), capturei – pelo menos em parte – o que essa sensação de movimento expressava: o fato de que a dramaturgia (e, portanto, sua forma) está sempre em diálogo com os impasses de seu tempo. Escrever uma peça de teatro é também uma maneira de elaborar as inquietações colocadas pelo presente, responder aos conflitos do agora. Não por acaso, a palavra conflito é um dos pilares do drama tradicional, forma em crise a partir do final do século XIX. As linhas de Esperando Godot, finalizadas em 1949, nascem depois de Beckett testemunhar os horrores da Segunda Guerra Mundial, passando de voluntário como motorista de ambulâncias a refugiado, e se juntando, após a invasão alemã, ao êxodo pelo interior da França. Na peça, o teatro do absurdo não é mais do que a realidade: a guerra esfacela as palavras, mutila o sentido. “Toda obra de Beckett é uma tentativa de dar nome ao inominável”, como afirmou Martin Esslin (1918-2002).
Sim, a obra de Beckett atesta o compromisso da dramaturgia com o seu tempo, mas também me mostrou que a linguagem pode dialogar com a realidade sem se deixar limitar por ela. Me deu coragens de liberdade para escrever. Muitas peças, dramaturgos e dramaturgas me ensinaram tantas outras coisas, mas coloco aqui este exemplo fundador como pretexto para responder à pergunta: ler dramaturgia porque lendo dramaturgia se aprende (também) a escrever dramaturgia. Soa óbvio e é mesmo, mas no óbvio também moram os grandes acontecimentos – como formadora em cursos da área, essa é uma verdade que ainda não me traiu. Por isso, lamento a existência de tão poucas editoras dedicadas a publicar teatro. Por outo lado, a importância de louvar nomes como a Temporal, que, em março de 2021, lançou, ao lado de outras editoras, o “Manifesto pela valorização da leitura de textos teatrais”, defendendo a formação de um público-leitor e a maior presença do gênero não somente no mercado editorial brasileiro como na imprensa, nos editais e programas de fomento e nos prêmios do universo do livro, tantas vezes sem a inclusão da categoria.
Por fim, compartilho aquele outro integrante da lista de assombros que a dramaturgia me proporcionou. Este tem natureza distinta, menos do instante e mais da compreensão acumulada dos anos. Construiu-se aos poucos, quase não sei dizê-lo sem parecer simplista, mas tento: com o tempo, me dei conta de que aprender sobre dramaturgia é, de certa forma, aprender sobre a própria vida. “Existiria sequer a arte se os homens não desejassem viver duas vezes? Temos a nossa vida; e, no palco, temo-la de novo”, escreveu Eric Bentley no livro A experiência viva do teatro (Zahar). Ler personagens ou vozes cheias de contradições nos leva a encarar as nossas próprias sombras. É quando, então, conduzidos por um texto teatral, podemos contemplar a experiência humana em parte de sua maravilha e também precariedade. Uma forma de olhar para o passado e para o presente e pensar: é assim que sentimos, é assim que vivemos. Ou melhor, um jeito de perguntar: é assim que sentimos, é assim que vivemos? Pergunta coletiva que, ao gosto do teatro, essa arte feita a muitas mãos e na presença do outro, nos permite então imaginar – conjuntamente – o futuro.
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Silvia Gomez é jornalista, dramaturga e roteirista. Suas peças foram traduzidas para o espanhol, francês, sueco, alemão, inglês, italiano e mandarim, tendo sido encenadas e lidas em países como Bolívia, México, Inglaterra, Espanha, Escócia e Portugal. Silvia é autora das peças teatrais Mantenha fora do alcance do bebê (prêmios APCA e Aplauso Brasil, 2015) e Neste mundo louco, nesta noite brilhante (indicação ao Prêmio Shell paulistano, 2019), entre outras. Em 2021, apresentou o espetáculo A árvore no Festival Mujeres en Escena por la Paz, Colômbia. Desde 2017, dá aulas de dramaturgia em locais como o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc (CPT) e o Núcleo de Dramaturgia do SESI-SP.
No banner: Ângela Leal e Sergio Britto interpretam Graziela e Papa Highirte, respectivamente, na montagem de 1979 de Papa Highirte, peça publicada pela Temporal em 2019. Fotografia cedida pelo Acervo Sergio Britto e pela Funarte/Centro de Documentação.