"Eu, Ota, rio de Hiroshima" e o dano ao projeto de vida
- crítica teatral

"Eu, Ota, rio de Hiroshima" e o dano ao projeto de vida

artigo por PIETRA VAZ DIÓGENES DA SILVA | Em texto que dialogo com literatura e direitos humanos, Pietra Vaz Diógenes da Silva comenta a obra "Eu, Ota, rio de Hiroshima", de Jean-Paul Alègre, discutindo como o trágico episódio do lançamento da bomba nuclear dizimou a cidade de Hiroshima em 06 de agosto de 1945. Entre as consequentes destruições, uma delas mostrava-se ainda mais cruel e impactante na vida dos cidadãos: o dano ao projeto de suas vidas. Confira!

Em plena Segunda Guerra Mundial, a Hiroshima que crescia às margens do rio Ota era um lugar tranquilo para se viver, embalado pelo som das águas que corriam pacificamente até alcançarem o mar de Seto. Havia pouca presença militar, pouca atividade bélica, e todos os seres que lá viviam – pessoas e o próprio rio – ignoravam a frieza do Projeto Manhattan.

Tudo isso mudaria em 06 de agosto de 1945, quando aviões estadunidenses rasgassem o céu de Hiroshima em elevadas altitudes e lançassem a chamada Little Boy, uma bomba fina e alongada de urânio com poder destrutivo sem precedentes. Foi assim que um clarão de luz tomou a cidade, seguido por uma chuva preta que transformou a manhã em noite. No momento do ataque, um grande estrondo ecoou a quilômetros de distância do epicentro; a ele, seguiu-se um silêncio ensurdecedor.

Tendo como base esse trágico episódio, Eu, Ota, rio de Hiroshima, escrita por Jean-Paul Alègre, pode ser considerada uma peça paradoxal: é tão delicada como o correr das águas do rio Ota e tão brutal como os fatos que narra – tais fatos, aliás, são narrados a partir da perspectiva do rio, um dos grandes sobreviventes da bomba atômica que devastou Hiroshima.

A menção às mortes, e também às vidas que foram transformadas após o lançamento da bomba, deixam evidente que o ataque nuclear mudou a humanidade como um todo instantaneamente. O presente foi alterado de súbito e o futuro passou a ser reconstruído em razão desse ataque que, até aquele momento, era inimaginável. E o que poderia ser feito para que tantas pessoas sejam acolhidas, tantas memórias sejam honradas? Do ponto de vista jurídico, ainda não havia muitos instrumentos internacionais; o mundo começou a se organizar com mais afinco justamente quando foram escancarados os horrores cometidos pelos seres humanos na Segunda Guerra Mundial. Dessa discussão, surge a Organização das Nações Unidas em 1945 e é editada a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948.

Nas décadas seguintes, o direito internacional evoluiu de modo a criar e remodelar institutos jurídicos. Nesse sentido, um dos conceitos estabelecidos pela Corte Interamericana de Direitos Humanos é o dano ao projeto de vida. Trata-se da perda ou do grave prejuízo de oportunidades de desenvolvimento pessoal, de forma irreparável, que afeta a liberdade objetiva da pessoa, levando-a à impossibilidade de desenvolvimento de seu projeto de vida. Em outras palavras, é o dano que impacta tão profundamente uma pessoa que a impede não apenas de realizar seus sonhos, mas sobretudo de sonhar.

Enquanto amadurece, o ser humano cria inúmeros projetos de vida. Yoshi, personagem de Eu, Ota, rio de Hiroshima, decide sair de Tóquio e morar em Hiroshima na companhia de sua irmã e de seus tios – temos aí um projeto. Akimitsu, irmã de Yoshi, pensa em terminar seus estudos após a guerra – esse é outro projeto. Existe uma diferença entre viver a frustração desses planos por consequência de acasos cotidianos, o que já é uma pena, e o impedimento de projetos por razões maiores e exteriores, que não apenas afetam a vida dos sujeitos de maneira pontual, mas transcendental. Não se trata aqui de danos materiais nem morais, mas existenciais.

Em uma das cenas mais emocionantes de Eu, Ota, rio de Hiroshima, personagens sem nome relatam a experiência daqueles que estavam na cidade no dia do ataque, mas não sucumbiram. Todos os relatos são marcados por descrições de confusão, desmoronamento, breu e silêncio. São evidências de que o ocorrido foi tão devastador que machucou, na raiz, o percurso vital dos sobreviventes. O projeto de vida dessas pessoas jamais será completado, porque ele não existe mais, e todas as suas perspectivas para a própria existência são substituídas pelo trauma. Para a Corte Interamericana, esse dano ao projeto de vida de caráter coletivo representa a forma máxima de desproteção e vulnerabilidade a que um grupo de pessoas pode ser exposto.

Com a explosão da bomba atômica, as águas verdes e brancas do rio Ota entraram em ebulição, mas logo começaram a correr novamente, ainda que eivadas pela radioatividade. Logo na primeira cena da peça, Ota diz que os rios são como nós, os seres humanos. Isso, no entanto, não me parece ser verdade: rios podem ser violados e destruídos, mas nunca perdem seu propósito. Rios não subtraem ou dividem uns aos outros, apenas se somam e se multiplicam rumo à imensidão do oceano.

Ota termina a peça com uma mensagem de esperança. Até hoje, por meio do que há de novo e de velho na cidade de Hiroshima, movimenta-se o rio, majestoso e resiliente, cumprindo seu projeto. Ao ser humano, fica a inspiração para seguir em frente, respeitando os projetos dos seres de seu entorno, assim como o rio respeita a todos, criando e concretizando planos que não afrontem a dignidade de “nenhum rio, nenhum afluente, nenhum riacho, nenhuma flor, nenhuma árvore, nenhuma mulher, nenhum homem, nenhum pequeno Yoshi, nenhuma pequena Akimitsu…”.

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Pietra Vaz Diógenes da Silva nasceu e cresceu em Uberaba, no interior de Minas Gerais. É mestra e bacharel em Direito, com formação transversal em Direitos Humanos, pela Universidade Federal de Minas Gerais. Durante o mestrado foi bolsista CAPES e deu aulas de Antropologia Jurídica, Práticas Legislativas e Teoria Geral do Direito. É especialista em Direito Digital pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro.